Ao afirmar que a BR-319 “sustentável” envolve presença permanente do Estado, fiscalização, regularização fundiária e proteção ambiental, o presidente Lula desloca o debate para um terreno mais complexo: o da governança territorial. A ideia de que infraestrutura e controle devem caminhar juntos procura responder ao histórico de tensões que cercam a rodovia. Não se trata apenas de asfalto, mas de presença permanente do Estado.
É justamente nesse ponto que a controvérsia reaparece. A distinção entre manutenção e pavimentação — que embasa os editais lançados com base na nova Lei do Licenciamento — não é detalhe técnico. Está no centro da disputa que levou à suspensão inicial das obras.
A liminar foi derrubada pelo TRF1, é verdade. Ainda assim, o debate permanece aberto na ação civil pública e nas ações diretas de inconstitucionalidade que questionam a própria lei no Supremo. O tema ainda não alcançou estabilidade jurídica.
Esse cenário revela uma realidade recorrente: projetos estratégicos para o Amazonas continuam avançando sob ambiente de incerteza.
O impulso político existe. A agenda administrativa se movimenta. Mas estabilidade institucional exige mais do que uma decisão favorável em segundo grau ou a assinatura de ordens de serviço. Exige coerência normativa, consistência técnica e articulação federativa capaz de sustentar o projeto no tempo.
A BR-319 já foi, em diferentes momentos, promessa, paralisação e símbolo de frustração. Agora retorna ao centro da agenda sob o discurso da sustentabilidade integrada. A formulação é correta.
O desafio é torná-la estrutural, e não episódica. Porque, em ambiente de elevada sensibilidade ambiental e judicialização recorrente, qualquer fragilidade reaparece como obstáculo.
Às vésperas das eleições gerais de 2026, o debate deixa de ser apenas administrativo e assume dimensão política. Não basta defender a obra nem reagir a decisões judiciais. É preciso demonstrar capacidade de estruturar um projeto que sobreviva ao controle ambiental, ao crivo jurisdicional e às pressões externas. A Amazônia precisa de integração. Mas precisa, sobretudo, de estabilidade. E estabilidade não se proclama — se constrói
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



Aviso