A simples possibilidade de que delações mencionem integrantes do Supremo Tribunal Federal já é suficiente para produzir um efeito imediato: o desgaste da confiança pública.
Não se trata de antecipar culpa nem de transformar menções em responsabilidade. O ponto é outro.
Em um ambiente onde a desconfiança já se espalhou, a exposição de relações, contratos ou episódios envolvendo membros do STF com suspeitos de crimes tende a ser interpretada como algo além do que efetivamente é.
O julgamento começa antes do processo, no campo da opinião pública, e isso altera a forma como os fatos passam a ser percebidos.
Esse cenário traz de volta uma experiência recente do país. Na Operação Lava Jato, a colaboração premiada foi decisiva para revelar esquemas complexos de corrupção. Ao mesmo tempo, mostrou seus limites: quando mal calibrada, pode gerar distorções, dúvidas sobre a formação da prova e questionamentos sobre a própria condução dos processos.
O próprio sistema de Justiça — inclusive o Supremo — acabou, mais tarde, revendo práticas e impondo correções.
É justamente esse aprendizado que torna o momento atual mais delicado. Delações continuam sendo instrumentos legítimos de investigação, mas seu uso exige cautela redobrada, especialmente quando há risco de sobreposição de interesses ou construção de narrativas que se cruzam.
Episódios recentes colocam sob questionamento a atuação ou relações de ministros da própria Corte supostamente cooptados por grupo criminoso.
O Supremo se vê diante de uma encruzilhada. Precisa permitir que investigações avancem e que a verdade apareça, mas também precisa garantir que o caminho até essa verdade seja confiável.
O risco maior não está apenas no que as delações possam revelar, mas no efeito que produzem: a ampliação da dúvida. E, quando a dúvida atinge a confiança nas instituições, não se compromete apenas um caso — compromete-se a base sobre a qual a própria Justiça se sustenta.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



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