A divulgação de um relatório parlamentar com conclusões graves envolvendo autoridades do mais alto escalão do sistema de Justiça brasileiro projeta efeitos que ultrapassam o plano estritamente político. Ainda que se trate, por ora, de conclusões formuladas no âmbito de uma CPI e sujeitas à deliberação dos parlamentares e aos desdobramentos institucionais próprios, o simples fato de a investigação alcançar ministros da Corte Constitucional já impõe reflexão pública inevitável.
É justamente nesse ponto que nasce o desconforto social. Quando o mesmo documento que descreve mecanismos típicos de criminalidade financeira e possível lavagem de dinheiro também lança questionamentos sobre integrantes do órgão incumbido de dar a palavra final sobre conflitos de interesse público, instala-se uma crise de confiança. A preocupação já não se limita a pessoas determinadas; passa a tocar a própria imagem da instituição.
O Supremo Tribunal Federal, por sua natureza, ocupa posição singular na República. É para ele que convergem, em última instância, os conflitos constitucionais, os temas de maior relevância pública e as controvérsias que exigem a palavra final do Direito. Por isso, qualquer sombra lançada sobre a atuação de seus integrantes inevitavelmente repercute sobre a percepção social da Corte.
Para o cidadão comum, essa distinção entre pessoa e instituição nem sempre se apresenta de forma nítida. A imagem do Tribunal tende a se confundir com a conduta pública de seus ministros. Quando surgem relatórios, investigações e questionamentos dessa magnitude, o abalo não é apenas reputacional no plano individual; ele alcança a confiança coletiva no próprio sistema de Justiça.
Não se trata de antecipar culpa ou de substituir o devido processo legal por juízo precipitado. Mas, justamente por isso, a resposta institucional precisa ser clara, técnica e transparente. Em tempos de dúvida, a credibilidade da Justiça não se preserva pelo silêncio, e sim pela capacidade de enfrentar, com serenidade e publicidade, os questionamentos que a própria realidade impõe.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.




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