Nas democracias o Parlamento investiga, a imprensa informa e a sociedade questiona. O problema surge quando episódios distintos passam a ser percebidos, por grupos isolados no poder, como partes de um mesmo fenômeno: o de que críticas a determinadas autoridades são ataques às instituições, com consequências para quem as formula.
Não se trata de afirmar a existência de um padrão uniforme ou de desconsiderar a necessidade de proteger instituições contra abusos e ataques reais.
O Supremo, por exemplo, teve, em momentos recentes, papel relevante na contenção de ameaças à ordem democrática. Mas essa atuação não elimina uma questão legítima: quais são os limites entre a proteção institucional e o risco de se produzir um efeito de inibição sobre o debate público?
Quando críticas, ainda que controvertidas ou até equivocadas, passam a ser acompanhadas da possibilidade de responsabilização, surge uma preocupação natural sobre o impacto disso no ambiente democrático. Parlamentares podem se tornar mais cautelosos em suas investigações; jornalistas podem ponderar o alcance de suas apurações; cidadãos podem evitar manifestações mais incisivas.
Não se trata de impedir a responsabilização por abusos, mas de refletir sobre seus efeitos indiretos.
No fundo, o desafio é preservar o equilíbrio. Instituições precisam ser protegidas, mas também precisam ser questionadas.
O sistema de freios e contrapesos não funciona sem tensão, mas essa tensão não pode se transformar em desestímulo ao controle recíproco.
O fortalecimento da democracia passa, justamente, pela capacidade de conviver com a crítica — inclusive quando ela é dura, incômoda ou imperfeita.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.




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