Não se discute a liberdade artística das escolas de samba. O Carnaval sempre dialogou com a política e continuará dialogando. O que se questiona é a fronteira entre celebração popular e promoção institucional. Autoridades em exercício não são figuras comuns: carregam a estrutura do Estado, a visibilidade do cargo e a natural projeção de futuras disputas políticas.
É justamente por isso que existe o princípio da impessoalidade. Para lembrar que o cargo não pertence à biografia de quem o exerce. Pertence à República. Quando a exposição pública é ampla, gratuita e carregada de simbolismo, o cuidado precisa ser proporcional.
Cabe ao Tribunal Superior Eleitoral — presidido pela ministra Cármen Lúcia — avaliar com serenidade se os limites institucionais estão preservados. Não para intervir na festa, mas para assegurar que o poder não se confunda com o palco.
O samba é do povo. O cargo é temporário. Misturar as duas coisas pode ser tentador — mas a República exige distinção.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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