Quando quem exerce função pública recorre à dramatização de figuras que representam pessoas extremamente pobres, além da presença de uma criança, com o propósito de, em tese, criticar o gestor público por meio de um vídeo, a mídia deixa de servir à denúncia responsável e passa a converter a miséria social em instrumento de impacto narrativo negativo.
A miséria, a fome e a vulnerabilidade não podem virar cenário de espetáculo, principalmente quando quem produz o conteúdo é um vereador, ou seja, alguém investido de função pública e com dever de fiscalização.
Isso fragiliza qualquer tentativa de denúncia séria e pode reduzir o debate público a mera espetacularização.
Em Manaus, onde a população convive diariamente com alagamentos e dificuldades nos serviços públicos, cobrar do prefeito e da prefeitura é um direito do cidadão.
A crítica ao poder público faz parte da democracia e ajuda a dar voz a quem sofre com os problemas da cidade. Mas a forma como essa crítica é feita também importa.
Quando um vídeo deixa de mostrar apenas os fatos e passa a usar uma criança, além de personagens que representam pessoas em situação de pobreza, para criar impacto emocional, a discussão muda.
A infância merece proteção especial e não deve ser utilizada como instrumento de narrativa política ou de sensibilização pública.
O papel do vereador não é atuar como humorista ou produzir encenações para ganhar seguidores nas redes sociais. Diferente do humor, que tem espaço na arte e na comédia, o mandato público exige responsabilidade institucional.
Quem ocupa cargo eletivo deve trabalhar pelo bem comum e, sobretudo, ajudar a reduzir as desigualdades sociais, não transformar a pobreza — e muito menos a imagem de uma criança — em instrumento de promoção da própria imagem.
Há ainda um ponto mais grave. Ao sugerir que alimentos ou benefícios sociais estariam sendo distribuídos fora dos critérios legais, com viés político ou eleitoral, o vídeo faz uma acusação séria. Se existem provas disso, o dever do vereador é apresentá-las aos órgãos competentes, como Ministério Público, Tribunal de Contas ou Justiça Eleitoral.
Um vídeo, por mais impactante que seja, não substitui a obrigação de fiscalizar e agir institucionalmente.
A cidadania precisa de denúncia responsável, com fatos, provas e providências concretas. Quando a crítica se afasta da realidade objetiva e se aproxima da encenação, ela perde força e pode até enfraquecer a própria causa que diz defender.
A cidade precisa menos de espetáculo e mais de compromisso público com a verdade, com a população e, sobretudo, com a proteção daqueles que merecem prioridade absoluta, como as crianças.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.



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