Quando se fala em escola integral, é comum associar o conceito apenas ao aumento do tempo que os estudantes permanecem na instituição. Apesar de a ampliação da jornada ser um dos pilares desse modelo, especialistas defendem que a formação integral dos estudantes depende também da oferta de experiências que extrapolem os conteúdos tradicionais e contribuam para o desenvolvimento acadêmico, social, cultural e emocional dos alunos.
Em seu site, o Ministério da Educação (MEC) define a educação integral como o processo de ensino, aprendizagem e participação que engloba as diferentes dimensões constitutivas do ser humano, como a física, intelectual, social, emocional, simbólica, política e cultural, articuladas entre si e em desenvolvimento contínuo ao longo da vida.
A doutora em Educação e pesquisadora da infância Adelir Marinho explica que a formação integral parte do princípio de que a escola não é responsável apenas pela transmissão de conteúdos acadêmicos, mas também por promover experiências diversificadas que contribuam para o desenvolvimento completo dos estudantes.
"A ampliação do tempo somente produz resultados quando acompanhada de uma reorganização curricular, metodológica e pedagógica capaz de ampliar as oportunidades formativas dos estudantes", diz. Segundo a pesquisadora, entender que mais horas no ambiente escolar não garantem melhoria na aprendizagem é um dos principais desafios.
O diretor da Escola Villare, Ernani Soares de Paula, aponta que a extensão da jornada escolar não pode ser vista apenas como uma solução logística para famílias com agendas cheias. As atividades complementares precisam oferecer oportunidades para que os alunos desenvolvam habilidades específicas e descubram ou aprimorem talentos. "Mais do que formar um catálogo extenso, o objetivo deve ser oferecer experiências que dialoguem com a complexidade da formação humana."
Para Paula, embora os componentes curriculares do horário regular de aula sejam fundamentais e constituam o núcleo da experiência escolar, a aprendizagem não pode se limitar a eles. "O contraturno não deve representar uma extensão das aulas regulares, mas uma oportunidade de vivenciar experiências diferentes e explorar novos interesses", acrescenta.
O diretor pedagógico da Escola Vera Cruz, Daniel Helene, também reconhece a importância dos programas extracurriculares no processo de formação integral, mas pondera que eles podem perder a efetividade se estiverem desconectados das ambições pedagógicas. "Não pode haver, na rotina escolar, nada que seja feito sem intencionalidade pedagógica, ou apenas para 'passar o tempo'", pontua.
Pandemia reforçou importância dessas iniciativas
Os especialistas apontam que, após a pandemia, o reconhecimento da importância dessas iniciativas aumentou. A Escola Vera Cruz ampliou as atividades de contraturno após o fim da crise sanitária, depois de identificar uma demanda. Já a Escola Villare oferecia atividades complementares antes da pandemia, mas afirma ter percebido uma valorização dessas atividades após esse período.
Adelir afirma que a pandemia foi responsável por evidenciar que a escola desempenha funções mais amplas do que a transmissão de conteúdo e que seu papel no desenvolvimento socioemocional dos estudantes não pode ser facilmente substituído. "Após o período de isolamento, foi possível observar os impactos causados na aprendizagem, na socialização, na saúde emocional e na convivência entre crianças e adolescentes", diz.
Nesse mesmo período, teve início a implementação de itinerários formativos, previstos na reforma do ensino médio de 2017. Eles correspondem à parte flexível do currículo escolar, na qual o estudante escolhe se aprofundar em áreas específicas de seu interesse. Após a revisão de 2024, os itinerários passaram a ter carga horária mínima de 600 horas.
Justamente por exigir que os alunos reconheçam seus interesses e façam suas próprias escolhas, os programas extracurriculares também ajudam no exercício da autonomia e do senso de responsabilidade, aponta Paula. "A possibilidade de escolha também contribui para que o tempo vivido na escola faça sentido para cada aluno, respeitando suas singularidades e modos de aprender", afirma.
Para o diretor da Escola Villare, os principais desafios em todo esse processo estão relacionados a aspectos operacionais, já que é preciso oferecer programas que atendam a diferentes interesses, faixas etárias e objetivos. Já Helene considera que as maiores dificuldades estão ligadas às rotinas dos estudantes, que já são cheias. Segundo ele, é essencial que o tempo de descanso entre as atividades também esteja no planejamento.
A ideia é reforçada por Adelir, que afirma que a falta de equilíbrio é um ponto de atenção nas propostas de escolas integrais e que a formação integral não deve significar escolarização excessiva, mas sim uma articulação equilibrada entre diferentes experiências formativas. De acordo com a pesquisadora, escolas públicas podem enfrentar um desafio a mais, já que ainda precisam lidar com menos infraestrutura e recursos.
Uso de celulares é restrito
Desde o início do ano letivo do ano passado, o uso de celulares em escolas públicas e privadas de todo o País é restrito. A lei não proibiu totalmente o uso dos aparelhos e deu autonomia para que as instituições definissem formas de aplicação da restrição, adequando as regras à sua realidade. Segundo o MEC, o uso ainda é permitido para fins pedagógicos, com autorização do professor, e para casos de acessibilidade, saúde e segurança?.
Os impactos da medida ainda devem ser analisados por uma pesquisa conduzida pela Secretaria de Educação Básica (SEB), em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e com o Instituto Alana, que engloba mais de 8 mil escolas públicas e privadas da educação básica. No entanto, profissionais ouvidos pelo Estadão apontam que os efeitos têm sido positivos.
A psicopedagoga do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, Claudia Tosi, afirma que a escola já proibia o uso de celulares durante as aulas, mas, após a entrada em vigor da lei, precisou de um período de adaptação para conscientizar os alunos de que o uso passaria a ser proibido em qualquer ambiente da instituição. "O tempo de adaptação ao novo contexto foi relativamente curto, o que demonstrou boa receptividade por parte da comunidade escolar." Segundo ela, mais de um ano após o início da restrição, a principal mudança observada ocorreu na interação entre os alunos.
Na Escola Villare, o uso dos aparelhos é proibido em todo o ambiente escolar, seja no turno regular ou no contraturno. Paula afirma que a adesão às novas normas ocorreu de forma tranquila, em parte devido ao alinhamento com as famílias. "Do ponto de vista dos estudantes, um dos efeitos mais frequentemente relatados é a redução da ansiedade associada ao uso contínuo do celular e à necessidade de estar permanentemente conectado", afirma o diretor.
Adelir aponta que a discussão em relação ao tema deve focar no sentido pedagógico atribuído às tecnologias, em vez de ser reduzida à oposição entre uso ou proibição do celular. Para ela, a formação integral também pressupõe o desenvolvimento da cultura e cidadania digital. "O desafio consiste em substituir o uso passivo e dispersivo por experiências pedagógicas intencionais, envolvendo produção de conhecimento, pensamento crítico, criatividade e letramento digital."



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