Crianças, jovens e adultos se reuniram em quatro Centros Educacionais Unificados (CEUs) da periferia de São Paulo, no sábado, 16 e no domingo, 17, para participar de palestras, oficinas e ativações dos Side Events do São Paulo Innovation Week (SPIW). Ocorreram atividades na Cidade Ademar, em Heliópolis, na Freguesia do Ó e em Sapopemba.
Trata-se de uma extensão do festival de inovação, focada em um dos pilares do evento, "trazer a dimensão humana para a inovação", como frisou em várias oportunidades o CEO do Estadão , Erick Bretas. "Eu estive pessoalmente nos quatro CEUs. Presenciei a interação das famílias locais com robôs, a empolgação dos alunos das oficinas de drones e debates de alto nível nos palcos. O Estadão se orgulha de facilitar a circulação do conhecimento por toda a cidade, incluindo as regiões periféricas."
Nas áreas externas do CEU Heliópolis, no sábado, crianças se divertiram e não seguraram as gargalhadas enquanto corriam atrás do cão robô, imitavam passos de dança, tiravam fotos e seguiam o robô humanoide. E a surpresa não se limitou a elas. Moradora do Jardim Elisa Maria, Cristina Miranda, de 54 anos, aproveitou as atividades no domingo na Freguesia. "Foi a primeira vez que pilotei um drone. Fiquei com medo de bater e quebrar, mas foi ótimo (risos)."
Mariana Apolinário, gerente de Cultura do Instituto Baccarelli, que cuida da programação nesses espaços públicos, acredita que os impactos positivos vão além do fim de semana, a começar pelo público, que pode passar a frequentar os CEUs. "(O evento) propicia que pessoas que não estão participando das atividades que já ocorrem no CEU venham, pensem na vida, pensem na perspectiva delas dentro dessas ações inovadoras."
"É importante, primeiramente, a gente trazer essa proposta para a periferia, para lugares mais afastados do centro urbano. A periferia produz muita tecnologia social. Então, é uma honra estar aqui", disse André Gustavo, coordenador do projeto Caminhos da Luz, curso de fotografia, animação e light-painting. "A gente está produzindo fotos com a linguagem do light-painting (em uma câmara escura). Essas fotos serão ofertadas para as pessoas que se inscreveram para participar e o SPIW tem tudo a ver com a nossa proposta. Estamos no intercâmbio entre o analógico e o digital."
Gustavo reconheceu que é um desafio constante fazer com que projetos como este cheguem a zonas periféricas. "Precisamos de cada vez mais propostas para que a população participe. É estar ali, ir até as pessoas, conversar com as lideranças que já ativam a comunidade e fazer uma proposta comum."
O sentimento é compartilhado por Luís Labriola, head de Operações e Produtos do estúdio multidisciplinar ARKx, responsável pela instalação Tarsila XR. Nela, o público foi convidado a entrar no universo visual de Tarsila do Amaral, utilizando óculos de realidade estendida para interagir com obras que, muitas vezes, não estão nem mesmo no Brasil.
Para Labriola, a grande diferença de trazer a proposta imersiva para o CEU é a fila de crianças ansiosas para interagir, mas também ver o quanto o brasileiro está, de fato, interessado nas inovações. "Já trabalhei em vários países e sempre tem um brasileiro, em qualquer lugar do mundo, trabalhando com tecnologia. Com isso, nós vemos a mudança de vida real que trabalhar com tecnologia traz para as pessoas. O Brasil tem um potencial absurdo e, muitas vezes, o que falta é oportunidade de conhecer."
Lugar para crianças
Quanto às crianças, mesmo com tanta experiência com tecnologia, Labriola se impressiona com a destreza. "Explicamos que é uma experiência que vai envolver algumas coisas motoras, mas é impressionante porque a gente que é mais velho apanha mais", admitiu. "Elas aprendem em dois segundos. No São Paulo Innovation Week, estamos habituados a um público mais empresarial, todo mundo é um pouco mais sisudo. Aqui, a molecada toda adora. Está sendo realmente um grande privilégio."
Esta destreza das crianças também é observada por Eliane dos Santos, fundadora da Giro Experience, que promove oficinas de drones. Ela destacou que, diante de uma tecnologia recente e, muitas vezes, cara, é inspirador ver o interesse dos mais novos. "Você vê o brilho nos olhos dos meninos que sempre sonharam em ser piloto de avião, em pilotar drones", conta. "Muitos parecem que já nascem com DNA para isso."
"A ideia era que a oficina fosse para crianças a partir dos 12 anos, mas chegaram meninos de 4 anos que pilotaram melhor do que os próprios pais. O brasileiro se vira nos 30 e é muito bom em tudo o que faz", observou ela. "Quando você dá essa oportunidade, então, ninguém segura. Só hoje, aqui, três meninos me procuraram falando que querem trabalhar com drones. Se conseguirmos levar duas, três crianças daqui, será incrível."
Podcast
Tão disputada quanto a oficina de drones foi a oficina de podcast, promovida pelo hub de conteúdo Compasso Coolab, e que convidou o público para se colocar atrás dos microfones e ter a experiência de apresentar um podcast. A fila de crianças esperando para se revezar e apresentar programas contando sobre as próprias vivências e falando de seus hobbies foi grande.
Para Ale Luppi, sócio-fundador da Compasso Coolab, há um diferencial em participar de um Side Event que não pode ser visto no evento principal do festival. "Para nós, estar aqui é uma grande escola. Sair da zona de conforto, de dentro dos estúdios, é tentar mostrar como a comunicação pode ser usada para coisas positivas e que é possível que todos tenham voz."
Ainda nessa área, o Tomorrowland Brasil, edição nacional do festival de música eletrônica, ofereceu uma oficina de mixagem voltada para o público infantil e juvenil do CEU, com apoio do Movimento Comunitário Estrela Nova. Foi um momento em que os estudantes puderam aproximar a tecnologia do lazer e entretenimento e também de uma possibilidade de carreira no futuro, como explicou Mario Sérgio Albuquerque, diretor de Festival do Tomorrowland Brasil. "A iniciativa buscou estimular a criatividade, fortalecer a autoestima e a autoconfiança dos participantes e ampliar seus horizontes e oportunidades futuras dentro da economia criativa, promovendo a inclusão e a conexão comunitária por meio da arte."
Inteligência Artificial
A programação também abriu espaço para oficinas de Inteligência Artificial (IA) voltadas à qualificação profissional de jovens. A ONG Despertar, associação comunitária da Cidade Ademar, promoveu atividades para ensinar os participantes a utilizar ferramentas de forma prática, criando comandos - os prompts - mais claros e eficientes.
Batizada de "Cozinha de IA: transforme prompts em soluções práticas", a oficina apresentou aplicações para estudos, trabalho e empreendedorismo. "A oficina me ensinou a ter uma visão mais ampla do mundo da inteligência artificial, que está presente em tudo hoje em dia", disse Yasmin Souza, aluna de curso técnico em Administração.
Falando de suco, mas natural
E as oficinas trataram não apenas do que é inovador por ser digital. "Desde 2019, não fico doente por causa da minha alimentação", disse Ademiro Alves de Sousa, mais conhecido como Sacolinha, na oficina em que apresentou sua receita de suco vivo no CEU Papa Francisco, na zona leste de São Paulo, no domingo.
Teve até preparo ao vivo. Enquanto cortava os ingredientes - como gengibre, maçã, laranja, chuchu e folhas como hortelã e alecrim -, Sacolinha comentou que a receita surgiu de procurar mais formas de aproveitar os alimentos. Mais do que reflexos na saúde, o hábito trouxe vantagem financeira. "Hoje, eu gasto na feira metade do que eu gastava antes." (Colaboraram André Carlos Zorzi e Felipe Iruatã)
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.




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