Levantamento coordenado pela organização SOS Mata Atlântica sobre a qualidade da água dos rios da Mata Atlântica, divulgado nesta quinta-feira, 19, revela um cenário em que predominam as condições regular, ruim ou péssima nos 162 pontos monitorados nas bacias do bioma em 2025. Apenas três deles registraram qualidade boa no Estado de São Paulo: Córrego Água Limpa (São Sebastião da Grama), Rio Piraí (Salto) e Córrego do Balainho (Suzano).
O Estado de São Paulo conta com a maior amostra do levantamento, com 83 pontos de coleta em 2025. Destes:
Nenhum ponto monitorado apresentou qualidade ótima;
Três pontos (3,6%) registraram qualidade boa;
Em 56 pontos, a maioria (67,5%), a qualidade foi regular;
Qualidade ruim em 19 pontos (22,9%);
Cinco pontos de qualidade péssima (6%).
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de SP (Semil) afirma que, desde 2023, "atua de forma robusta e perene para melhorar a qualidade da água dos rios paulistas." Cita ainda o programa IntegraTietê, coordenado pela Semil, com mais de R$ 22 bilhões em investimentos na área (leia mais abaixo).
Já a Sabesp, em nota, afirma ter conectado cerca de um milhão de imóveis à rede de tratamento de esgoto em 2025, sendo 800 mil na Região Metropolitana de São Paulo, reduzindo em aproximadamente 22% o volume de esgoto lançado sem tratamento nos rios da metrópole em relação a 2023.
O trabalho de análise da qualidade da água dos rios da Mata Atlântica foi feito por mais de cem grupos voluntários coordenados pela organização SOS Mata Atlântica, como parte do programa Observando os Rios. Eles produziram 1.209 análises do Índice de Qualidade da Água (IQA) ao longo de 2025. As coletas realizadas mês a mês indicam leve piora na qualidade dos rios em relação a 2024.
Novamente, a Região Metropolitana de São Paulo concentra os cinco locais do estudo em que foi verificada qualidade de água péssima, situados no Rio Pinheiros, no Ribeirão Jaguaré e no Ribeirão dos Meninos, em São Caetano do Sul. Rios de qualidade péssima são inservíveis para qualquer tipo de uso, com baixa oxigenação e vida aquática inexistente. O Tietê, maior rio do Estado, foi avaliado em dez pontos pelo levantamento em 2025, tendo seis resultados de IQA regular e quatro ruins.
Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica, diz que rios com IQA em nível péssimo não estão mortos, mas "agonizando numa UTI, respirando por aparelhos". O principal fator de recuperação é deixar de receber esgoto não tratado, diminuindo a carga orgânica e com isso a decomposição que retira oxigênio do rio.
Há também alguns casos de melhora registrados pelo levantamento. Em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, o ponto do rio Itaguaçu/Itaquanduba apresentou melhora (de IQA ruim em 2024 para regular em 2025) em razão da ampliação da rede de esgoto no bairro do Morro dos Mineiros, um dos mais populosos da ilha.
Principal índice de qualidade da água utilizado no País, o IQA é composto por nove parâmetros que incluem temperatura, turbidez, oxigênio dissolvido e coliformes na água. Eles são eficazes para detectar principalmente a contaminação causada pelo lançamento de esgotos domésticos, mas, segundo a Agência Nacional de Águas, não captam outros indicadores de contaminação, como metais pesados, pesticidas ou protozoários que causam doenças.
Além do esgoto, também há outras fontes de poluição que precisam ser sanadas, como o lixo e sedimentos agrícolas que acabam sendo arrastados para dentro dos rios. A intensificação dos eventos extremos e a alteração do regime de chuvas provocados pela emergência climática também agravam a condição dos rios, segundo o relatório.
"No desassoreamento de cursos dágua, desde 2023, a SP Águas já retirou 5,2 milhões de metros cúbicos de sedimentos dos rios Tietê e Pinheiros e de piscinões da Grande São Paulo, com investimento superior a R$ 943 milhões, enquanto o programa Rios Vivos removeu mais de 4,3 milhões de metros cúbicos de resíduos em 187 municípios, com aporte de R$ 296 milhões. A retirada de lixo flutuante ao longo de 25 km do Rio Pinheiros é feita diariamente, com 128 mil toneladas de resíduos removidas e investimento de mais de R$ 204 milhões desde 2023", diz a Semil.
Professor do curso de gestão ambiental e coordenador da área de pesquisa em água e saneamento da USP Leste, Marcelo Nolasco considera que o levantamento tem limitações ligadas ao modelo e à abrangência, mas cumpre a função de conscientizar e engajar a população e provocar os tomadores de decisão. "Estudos acadêmicos de monitoramento coletam um número muito maior de amostras em um único rio", pondera. "Quem deveria estar fazendo esse trabalho é a Cetesb", disse.
Questionada, a Cetesb não respondeu.
Tietê e Pinheiros
A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado, Natália Resende, afirmou em 2025 ao Estadão que haveria melhoria no Tietê até o final da gestão neste ano, mas a mudança mais expressiva na qualidade do rio seria concretizada com a universalização do saneamento, prometida pela Sabesp para 2029.
O Pinheiros também é alvo de promessas. Hoje incorporado pelo Integra Tietê, o programa Novo Rio Pinheiros, da administração de João Doria (2019-2022), buscou recuperar a orla criando espaços de lazer, implantando parques lineares e ampliando ciclovias. Apesar de ter havido avanço, a qualidade da água e o mau cheiro ainda são obstáculos à convivência com o rio.
No ano passado, a Sabesp chegou a ser multada por um vazamento de esgoto ocorrido na Estação Elevatória de Pinheiros, que recebe os dejetos de 3,8 milhões de moradores da capital, gerando uma mancha escura e odor forte no rio, na altura da Ponte Eusébio Matoso. Segundo a companhia, o equipamento estava com "vida útil vencida", e desde então foi iniciada a reforma completa, com contratação de novas bombas e investimento de R$ 20 milhões. A previsão de entrega é ainda no primeiro semestre de 2026.
A empresa afirma ter reduzido em cerca de 22% o volume de esgoto lançado sem tratamento na Região Metropolitana de São Paulo em relação ao fim de 2023, em que o esgoto lançado equivalia a aproximadamente 63 bilhões de litros por mês, comparável a 25 mil piscinas olímpicas. Com base nesses números, ainda são lançados hoje cerca de 49 bilhões de litros de esgoto sem tratamento ao mês na região metropolitana.
Soluções alternativas
Gustavo Veronesi, do SOS Mata Atlântica, afirma que a despoluição pode ser alcançada, mas vê como problemática a sucessão de promessas e prazos de despoluição não cumpridos. "Essas promessas, esses números gigantescos não refletem o que o rio está nos contando, que não está sendo suficiente", afirma.
Os especialistas sugerem que, mais do que aumentar as conexões à rede de esgoto, são necessárias estratégias que vão além do tradicional, como uso de soluções baseadas na natureza e estações de tratamento menores, em que os efluentes sejam tratados localmente.
Em regiões muito densamente povoadas e onde há assentamentos precários, sem coleta de esgoto, como a zona leste de São Paulo, o professor da USP Marcelo Nolasco afirma que é possível implementar redes mais curtas e finas de coleta de esgoto, que não demandam obras gigantes de escavação com grandes máquinas, e estações de tratamento descentralizadas, próximas das fontes geradoras. "Em vez de transportar o esgoto 20 km para ser tratado, ele vai tratar a 500 metros de onde é gerado."
O diretor executivo de engenharia e inovação da Sabesp, Roberval Tavares, disse ao Estadão que a prioridade é encaminhar esgoto para as cinco grandes estações de tratamento da região metropolitana: Barueri, São Miguel, Parque Novo Mundo, ABC e Suzano.
"Como nós estamos expandindo muito para as periferias, para os locais mais distantes do centro urbano, estamos também com cinco novas estações de tratamento no município de Guarulhos, mais quatro grandes estações na região do extremo norte de São Paulo, que permite com que a gente capte esse esgoto, trate no local e devolva ao meio ambiente", diz.

