Por Leila Miller
BUENOS AIRES, 27 Jul (Reuters) - A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional chega à Argentina nesta segunda-feira em um momento em que cresce a confiança dos investidores nas reformas do presidente Javier Milei, apesar das preocupações com uma crise no pagamento da dívida que pode coincidir com sua campanha pela reeleição.
As exportações da Argentina estão aumentando, as reservas internacionais estão se acumulando e a inflação, antes galopante, está desacelerando. Na semana passada, a Moody’s elevou o rating soberano do país após elevações anteriores feitas pela S&P Global e pela Fitch, o que reforça o otimismo dos investidores em relação aos esforços de Milei para estabilizar uma economia há muito associada a ciclos de expansão e recessão.
No entanto, os investidores estão acompanhando de perto o que está por vir. Um relatório do FMI estimou a dívida em moeda estrangeira da Argentina para 2027 em US$32,3 bilhões, incluindo juros, antes de o banco central injetar US$6 bilhões em financiamento via operações compromissadas com vencimento estendido para 2028 neste mês.
O governo afirmou que planeja cumprir essas obrigações por meio de uma combinação de financiamento multilateral, privatizações e emissão de dívida local, evitando, ao mesmo tempo, um retorno aos mercados de capitais internacionais.
O momento é delicado, pois os pagamentos vencerão justamente quando se espera que Milei busque um segundo mandato. Qualquer percepção de que Milei possa ter dificuldades para ser reeleito, ou de que um sucessor possa mudar o rumo da política econômica, poderia pesar sobre a confiança e complicar o financiamento.
A viagem de Kristalina Georgieva, sua primeira à Argentina como diretora-geral do FMI, deve incluir reuniões com Milei e o ministro da Economia, Luis Caputo, bem como uma visita à formação de xisto de Vaca Muerta, na Patagônia, um pilar da estratégia do governo para impulsionar as exportações de energia e gerar os dólares necessários para fortalecer as finanças do país.
Sua visita de dois dias antecede a terceira revisão do programa de US$20 bilhões da Argentina junto ao FMI. Desde que Milei assumiu o cargo no final de 2023, o Fundo tem apoiado consistentemente a disciplina fiscal do governo, as reformas legais e os esforços para reduzir a inflação mensal, que caiu de 25,5% em dezembro de 2023 para 1,9% em junho.
O último relatório técnico do FMI, no entanto, alertou para “riscos excepcionais”, afirmando que, embora a dívida da Argentina seja sustentável, não há grande probabilidade de que continue assim.
TESTE ELEITORAL
O próximo ano se configura como um teste crucial não apenas para a agenda legislativa de Milei, mas também para o FMI, que tem apoiado fortemente a recuperação econômica da Argentina.
A Argentina continua sendo o maior devedor do Fundo, e as duas partes têm uma história complexa, após uma sucessão de programas que não conseguiram impedir crises econômicas repetidas.
O foco dos investidores está mudando do sucesso de Milei em estabilizar a economia para a questão de saber se a recuperação poderá se manter, afirmam analistas. O desafio agora é gerar dólares, investimentos e apoio eleitoral suficientes para sustentar suas reformas de austeridade além da recuperação inicial.
O fortalecimento das exportações e a melhora dos indicadores financeiros, por si só, não garantirão o sucesso eleitoral se muitos argentinos estiverem sobrecarregados pelo alto endividamento familiar e pela precariedade do emprego, afirmaram analistas.
“O problema de Milei não é mais se a narrativa macroeconômica é crível no exterior. É se os eleitores conseguem sentir isso em casa”, disse Mariano Machado, da consultoria de risco Verisk Maplecroft.
As políticas governamentais que flexibilizam as restrições às importações levaram a perdas acentuadas de empregos em setores manufatureiros ineficientes, disse Aldo Abram, diretor da Fundación Libertad y Progreso.
A Moody’s, embora tenha elevado o rating do país neste mês, alertou que os riscos políticos continuam sendo um importante obstáculo e que qualquer retrocesso nas reformas pode comprometer os ganhos recentes.
Isso torna as eleições de 2027 quase tão importantes quanto os próprios pagamentos da dívida.
“O grande desafio é que esse processo de reorganização, que aos olhos dos investidores e da macroeconomia é muito satisfatório, precisa ser validado eleitoralmente”, disse o economista Gustavo Ber.



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