Por Bernardo Caram
BRASÍLIA, 10 Mar (Reuters) - A volatilidade nos mercados e a ampliação de incertezas a partir do conflito no Irã impuseram desafio adicional ao governo na elaboração de previsões econômicas que orientam políticas públicas e a gestão orçamentária, enquanto se aproxima o fim de prazos para divulgações de projeções oficiais, segundo duas fontes a par das análises.
A atenção também é voltada aos efeitos da guerra sobre a dívida pública e sobre a atuação do Banco Central, que prevê iniciar um ciclo de corte de juros já na quarta-feira da semana que vem, mas tem visto apostas do mercado migrarem para um afrouxamento menos intenso da política monetária sob risco de pressões inflacionárias.
O governo vai publicar em até duas semanas suas previsões oficiais para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) e inflação em 2026, dados que podem sofrer reflexos do conflito militar e que alimentam o relatório bimestral de receitas e despesas, a ser apresentado neste mês para orientar a execução orçamentária.
A eclosão do conflito no Irã há menos duas semanas, com ataques ao país por Israel e Estados Unidos, levou a fortes variações da cotação do petróleo, que se aproximou de US$120 nesta semana, mas operava nesta terça-feira em queda firme, perto dos US$83 o barril, após o presidente dos EUA, Donald Trump, dizer que a guerra pode acabar em breve. O dólar, por sua vez, registrou alta na semana passada, mas vem recuando nos últimos dias, cotado a R$5,14 na tarde desta terça.
“Esta semana será decisiva para vislumbrar cenários. Se passar desta semana sem sinais do fim da guerra, e se de fato refinarias e produção reduzirem ou até pararem, aí haverá danos de médio prazo”, disse uma fonte do Ministério da Fazenda, citando preocupação com a inflação e a política monetária.
O Orçamento deste ano pressupõe um crescimento do PIB de 2,4%, inflação de 3,6%, preço médio do petróleo Brent em torno de US$65 por barril e taxa de câmbio de R$5,76 por dólar.
Essa autoridade disse não acreditar que os Estados Unidos insistirão em um cenário de guerra contínua que mantenha a cotação do petróleo em nível alto, prevendo uma liberação de estoques globais se os ataques continuarem.
Uma segunda fonte afirmou que a administração Trump turva a visão sobre a economia global não apenas por conta da guerra, mas pela gestão do governo do país norte-americano como um todo. Ela acrescentou que a Fazenda está fechando análises que trarão diferentes cenários com possíveis impactos do conflito.
O economista e ex-secretário do Tesouro Nacional Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, avaliou que os principais impactos econômicos do conflito no Irã no curto prazo para o Brasil se dão via inflação, consequentemente via juros, com efeitos de longo prazo ainda incertos e condicionados à duração da guerra.
Para ele, pressões inflacionárias de curto prazo podem colocar em xeque a visão de que o BC iniciaria o ciclo de redução da Selic com um corte de 0,50 ponto percentual na semana que vem.
“As apostas em um corte de 0,25 ponto ou até mesmo de manutenção vêm crescendo”, afirmou.
Na B3, as opções de Copom precificavam na sexta-feira -- dado mais recente -- 50,91% de probabilidade de corte de 50 pontos-base da Selic este mês, 33,00% de chance de redução de 25 pontos-base e 14,50% de possibilidade de manutenção. Em 27 de fevereiro, antes da guerra, os percentuais eram de 77,50% para corte de 50 pontos-base, 20,04% para redução de 25 pontos-base e zero para manutenção.
DÍVIDA PÚBLICA
Bittencourt vê com ressalvas avaliações de que os efeitos do conflito sobre o preço do petróleo poderiam ser positivos para a política fiscal -- com maiores receitas de royalties e dividendos da Petrobras, enquanto uma inflação mais alta também poderia ampliar a arrecadação tributária.
Segundo ele, se a pressão inflacionária gerada pelo preço mais elevado do petróleo fizer o ciclo de corte da Selic ser, por exemplo, 0,50 ponto percentual mais tímido do que o originalmente previsto, a dívida bruta do governo -- que estava em R$10,1 trilhões em janeiro -- se elevará em cerca R$28,6 bilhões em termos anuais.
“Podemos estar comemorando a contribuição desse efeito para o cumprimento de uma meta que pouco diz sobre o real esforço fiscal do governo, enquanto a métrica inescapável para a solvência (dívida bruta) pode ter sua trajetória agravada”, afirmou.
Uma terceira fonte da equipe econômica demonstrou especial preocupação com os impactos sobre a dívida pública, prevendo que um cenário de continuidade da guerra traria efeito negativo sobre o endividamento do governo que se sobreporia aos ganhos diretos de arrecadação.
(Por Bernardo Caram)

