Com um faturamento de R$ 9 bilhões, quase 5.000 lojas e um modelo de negócios que se diversificou para além da venda de chocolates - com hotéis e, em breve, um parque temático -, a Cacau Show tenta manter vivo o espírito de "dono" na companhia. Apesar do porte que alcançou, Alê Costa, fundador do grupo, ainda acredita que uma eventual entrada na Bolsa poderia acrescentar complexidades que afetariam o principal benefício dessa atitude no negócio: a velocidade de crescimento.
"Não conseguimos achar nenhum sentido estratégico para isso agora. Somos auditados por uma big four , padrão CVM, temos conselho de administração há 10 anos. Estaríamos prontos para fazer [IPO, oferta inicial de ações, em inglês], mas realmente só quando fizer sentido", disse o executivo em entrevista ao Broadcast , sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
Abrir capital ampliaria a base de sócios da companhia, além de trazer maior complexidade e exigências de governança, na visão do fundador. Com 18 executivos como sócios, Costa defende que a gestão próxima e a "visão de dono" desses integrantes são pilares do seu modelo de negócio.
"Não temos necessidade de capital para seguir nossos sonhos, e a complexidade não faz muito sentido, especialmente porque uma das nossas principais vantagens é a velocidade", afirmou.
Como exemplo, ele citou o lançamento do Ovo Dreams em Fatias, desenvolvido em menos de 20 dias a partir de tendências observadas nas redes sociais - um ovo dividido em fatias, cada uma com um sabor diferente. "Nosso modelo de inovação permite testar ideias em tempo real."
Costa fundou a Cacau Show em 1988, mas o negócio começou antes, quando ele tinha 17 anos e passou a fabricar ovos de Páscoa para venda. Hoje, a data representa quase um quarto das vendas anuais do grupo. Em 2001, a companhia abriu a primeira loja física e, no ano seguinte, iniciou a expansão por meio de franquias, modelo que segue como base do crescimento até hoje.
Em 2025, a companhia faturou R$ 9 bilhões, 13,6% acima do registrado no ano anterior. Ao todo, soma 4.781 lojas no Brasil, sendo aproximadamente 450 unidades próprias e mais de 4,3 mil franquias, o que evidencia a relevância dos franqueados para o crescimento do grupo.
Novos Mercados
A Cacau Show também já começa a traçar uma perspectiva de ir para fora do Brasil. Segundo o CEO, a expansão internacional deve ocorrer após a consolidação dos investimentos no Brasil, como a construção do parque temático, que pode funcionar como uma vitrine da marca.
"Chegar em um país sem ninguém te conhecendo é muito complicado. Por isso, é provável que, a partir de 2028, a gente comece a planejar de forma mais estruturada a ida para fora do Brasil. Quem sabe até com parques, com pacote total, porque isso ajuda a ganhar reconhecimento de marca", afirmou.
Por enquanto, o foco segue no novo e ambicioso capítulo da empresa: a construção de um parque temático no interior de São Paulo. Com investimento estimado em cerca de R$ 2 bilhões, o projeto tem abertura prevista para o fim de 2027.
Com cerca de 1 milhão de metros quadrados e atrações que devem figurar entre as maiores da América Latina, o parque integra a estratégia da companhia de ampliar sua atuação para além do chocolate. "Com o avanço do e-commerce, o varejo que não se reinventar será trocado por um clique", disse Costa.
A empresa também já opera dois resorts sob a marca Bendito Cacao, em Águas de Lindóia e Campos do Jordão, no interior de São Paulo. Fora essas novas frentes, a companhia ainda planeja expandir o número de lojas e atingir o total de 5.500 unidades até o fim do próximo ano. "Também estamos aumentando a superfície das lojas e os serviços oferecidos. Uma unidade de 25 metros virou uma loja de 100 metros, e isso mais que dobra as vendas", afirmou o executivo.
Alta do cacau
A Cacau Show projeta uma recuperação este ano após enfrentar um ano difícil em 2025, marcado principalmente pela alta expressiva nas cotações do cacau no mercado internacional.
"Tivemos o pior resultado dos últimos dez anos em termos de lucratividade por conta do aumento absurdo do preço do cacau. Os custos de produção chegaram a ser seis vezes mais caros pela nossa principal matéria-prima", afirmou o CEO.
O movimento pressionou significativamente os custos da companhia, que optou por não repassar integralmente o aumento ao consumidor. Segundo Costa, o impacto foi absorvido principalmente pelas margens. "Foi tudo para margem, nós aumentamos 7%. 2026 é um ano de recuperar a margem."
Páscoa
A Páscoa concentra cerca de 23% das vendas anuais da Cacau Show, sendo o período mais relevante para a companhia. Para 2026, a empresa projeta a maior campanha de sua história, com produção de aproximadamente 25,5 milhões de ovos de chocolate e mais de 31 milhões de itens no total. O portfólio inclui cerca de 75 produtos, dos quais 46 são lançamentos.
Segundo o CEO Alexandre Costa, o volume coloca a companhia com mais de 50% de participação no mercado brasileiro de ovos de Páscoa. "O mercado brasileiro é de cerca de 45 milhões de unidades, e nós estamos fazendo 25 milhões e meio", afirmou.
A expectativa também é de crescimento em relação ao ano anterior, com alta de cerca de 13% no volume total de produtos. Durante o período, a companhia prevê receber milhões de consumidores em suas lojas, com picos de até 3 milhões de pessoas por dia.
A estratégia inclui ainda produtos em diferentes faixas de preço, com itens a partir de R$ 9,99, além de opções voltadas a restrições alimentares, como versões zero açúcar, zero lactose e veganas.


