Em linha com a cautela global, a reversão do fluxo estrangeiro impôs mais um dia negativo ao Ibovespa, com os alocadores de recursos em Bolsa tendo voltado, nas últimas semanas, a mostrar preferência pelo setor de tecnologia, em índices como o Nasdaq e o S&P 500, de Nova York, que vêm de máximas históricas, e de emergentes com exposição ao segmento, como o de Seul. Em Nova York, tanto o índice amplo (S&P 500) como o tecnológico (Nasdaq) fizeram nesta segunda-feira, 18, uma pausa, após sucessão de recordes. No fechamento desta segunda-feira, cediam 0,07% e 0,51%, pela ordem.
Por aqui, a referência da B3 conseguiu limitar perdas em direção ao fim da sessão, em baixa de 0,17%, aos 176.975,82 pontos. E distanciou-se da mínima do dia, de 175.811,33 no meio da tarde, encerrando mais perto da máxima (177.329,88), quase correspondente ao nível de abertura, de 177.280,72 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 24,2 bilhões nesta segunda-feira. No mês, o Ibovespa cai 5,52% nesta abertura de segunda quinzena, limitando o ganho do ano a 9,84%.
"O movimento dos mercados nesta segunda-feira refletiu a continuidade da aversão a risco observada no fim da semana passada, em um cenário global marcado pela pressão sobre os juros longos, preocupações fiscais em economias como Japão e Estados Unidos, e pela alta do petróleo diante das tensões no Oriente Médio e das incertezas envolvendo o Estreito de Ormuz", diz Felipe Miranda, economista e ex-CEO da Empiricus, referindo-se à alta dos juros globais, às tensões geopolíticas e a preocupações fiscais decorrentes desse cenário ainda atribulado.
"Esse ambiente reforça o receio de inflação mais persistente e leva o mercado a revisar as expectativas para cortes de juros, tanto no exterior quanto no Brasil, com apostas em flexibilizações monetárias mais limitadas e até discussões sobre novas altas em algumas economias desenvolvidas", acrescenta. "A tese de que o Brasil seria um dos principais beneficiários da demanda global por commodities, energia e ativos reais perdeu força após uma temporada de resultados corporativos abaixo das expectativas, enquanto o setor de tecnologia voltou a atrair fluxo para mercados desenvolvidos, especialmente nos Estados Unidos."
Dessa forma, no meio da tarde o Ibovespa renovou mínimas da sessão abaixo de 176 mil pontos, parecendo a caminho de romper a marca de encerramento de 20 de março, encaminhando-se então para o que seria o menor nível final desde 22 de janeiro, a 175.589,35 pontos naquele fechamento - o que foi evitado com a quase garantia dos 177 mil, do meio para o fim do dia. Na ponta perdedora do Ibovespa nesta abertura de semana, CSN Mineração (-9,32%), CSN (-4,21%) e MBRF (-3,50%). No lado oposto, Copasa (+3,48%), Hapvida (+3,05%) e PetroReconcavo (+2,71%).
O petróleo fechou em alta nesta segunda-feira, ainda sustentado por preocupações persistentes com a oferta global diante do impasse nas negociações entre EUA e Irã e das incertezas sobre uma reabertura rápida do Estreito de Ormuz. O mercado também reagiu a declarações do presidente americano, Donald Trump, indicando pouca disposição para concessões a Teerã. Em Nova York, o WTI para junho fechou em alta de 3,33% (US$ 3,36), a US$ 104,38 o barril, e o Brent para o mesmo mês, em Londres, encerrou com ganho de 2,6% (US$ 2,84), a US$ 112,10 por barril.
Mas, depois do fechamento de Londres e Nova York, a decisão de Trump de não levar adiante um ataque ao Irã que o presidente dos EUA afirmou estar programado para a terça-feira resultou em alguma redução na percepção de risco global, para diferentes classes de ativos, inclusive as ações listadas na B3. Apesar da alta de Petrobras (ON +2,66%, na máxima do dia no fechamento; PN +2,13%), o sinal do Ibovespa foi definido por outros papéis de grande peso no índice, como Vale (ON -2,00%) e os do setor financeiro, com Banco do Brasil (ON -1,35%) à frente das perdas.
"Como diz o velho ditado de Wall Street, sell in May and go away , venda em maio e se afaste do mercado. E, de fato, maio vem confirmando esse movimento. Temos queda acumulada na Bolsa e valorização do mercado de câmbio ao longo do mês", no Brasil, aponta Alison Correia, analista e cofundador da Dom Investimentos.
"O mercado passou a enxergar uma desinflação mais lenta, o que reduz o espaço para cortes mais acentuados da Selic ainda este ano", destaca Igor Monteiro, CEO da EqSeed, referindo-se a fatores como a alta do petróleo e o respectivo efeito nas expectativas de mercado compiladas semanalmente pelo Banco Central no boletim Focus - que trouxe nesta segunda, enfatiza Monteiro, piora na leitura para 2026 em dois pontos-chave: inflação e juros.
Para Eduardo Levy, economista e sócio responsável pela LB Endow Consultoria, os mercados globais voltaram a mostrar, nesta segunda, correlação à geopolítica, com efeito direto para juros de longo prazo nos EUA, com taxas acima de 5%, replicando o que se viu na crise mundial de 2007 e 2008. "Inflação continua subindo, ainda que os resultados de empresas de tecnologia tenham dado alguma ajuda para dar suporte aos índices de ações, em especial nos EUA", diz.




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