Embora sem a confirmação do Irã, as declarações dos Estados Unidos de que o país concordou em voltar a receber inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) foram lidas como um avanço nas negociações para encerrar o conflito e deram espaço a um apetite por risco maior nos mercados. Como resultado, o Ibovespa subiu mais de 1% e recuperou o nível dos 170,3 mil pontos, com as ações de primeira linha no azul sinalizando a entrada de fluxo estrangeiro. O giro financeiro, contudo, foi limitado enquanto investidores aguardam a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) de junho e o índice de inflação PCE dos EUA, a serem divulgados na quarta e na quinta-feira, respectivamente.
O arrefecimento das tensões no Oriente Médio fez o petróleo Brent para agosto ceder 3,31%, a US$ 77,90 por barril, mas as ações da Petrobras conseguiram fechar em alta de 0,95% (PN) e 0,69% (ON). Investidores estrangeiros, historicamente, tendem a privilegiar a compra de ações preferenciais, em vez de ordinárias, pois buscam maior liquidez e prioridade no recebimento de dividendos.
Nessa linha, o economista Ian Lopes, da Valor Investimentos, afirma que a alta superior a 1% do Ibovespa, nesta segunda-feira, 22, ocorre principalmente por conta do fluxo estrangeiro, visto que poucos fatores internos colaboram para o mercado subir. "Sempre que o mercado dá uma descontada, o investidor estrangeiro vê bons ativos no Brasil. Com apetite a risco, vem fluxo de capital", comenta.
O Citi afirmou, em relatório, que o valuation atual do Ibovespa é difícil de ser justificado apenas com base nos fundamentos. "Com um múltiplo de 8,4 vezes, o mercado parece estar precificando um grau de pessimismo que parece excessivo em relação ao cenário geopolítico em melhoria e à opcionalidade idiossincrática da política monetária do país", avalia.
O especialista em renda variável da Davos, Marcelo Boragini, nota, contudo, que o volume financeiro da Bolsa - que fechou com giro financeiro de R$ 23,62 bilhões - foi fraco em relação à média diária de R$ 31 bilhões. "Se estiver vindo fluxo para a Bolsa, é pouco. Investidor está em compasso de espera pela ata do Copom e o PCE dos EUA", pondera.
Lopes, da Valor, destaca ainda que os investidores ainda aguardam eventuais desdobramentos da situação do Irã, que tem gerado incerteza e volatilidade.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, reafirmou que as negociações com o Irã continuam avançando, mas ressaltou que ainda há trabalho a ser feito para alcançar um acordo definitivo. Tanto ele quanto o presidente Donald Trump disseram que Teerã aceitará inspeções abrangentes para assegurar a chamada "honestidade nuclear" no longo prazo.
Enquanto as negociações entre Washington e Teerã para um acordo definitivo continuam, o Irã ainda não confirmou que permitirá a supervisão do programa nuclear pela AIEA.
"Dentro de uma guerra, há narrativas de um lado e de outro. Às vezes o Irã faz isso [de não confirmar algo] de forma proposital para pressionar, e enquanto isso o mercado fica carente dessas notícias. Acabou por fim elegendo o Trump como principal driver", afirma o CEO da Gravus Capital, Ricardo Trevisan. Ele, contudo, pondera que o noticiário segue volátil: "Um dia falam que vão assinar memorando de entendimentos, e no outro Israel faz bombardeio", exemplifica.
Para terça, o foco ficará na ata da reunião de junho do Copom. Nesta segunda, o boletim Focus mostrou que a estimativa mediana para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026 subiu de 5,30% para 5,33%, acima do teto da meta de inflação, de 4,5%. Já a projeção para a taxa Selic foi para 14,00% ao ano ao fim de 2026, de 13,75% na semana anterior.
Para Boragini, da Davos, o mercado não entendeu até agora o comunicado mais dovish do Copom na quarta-feira passada e buscará entender por que o comitê decidiu por esse tom, apesar das expectativas de inflação piores.
Trevisan, da Gravus, considera que faz sentido o Ibovespa subir pela influência das ações do setor financeiro, considerando que bancos têm margem para ganhar a mais com juros elevado por meio de Tesouraria. "O risco do juro alto para o banco é se ele estiver alto por tempo demais", pondera.
Após mínima com variação zero, pela manhã, aos 168.326,26 pontos, e máxima aos 170.749,76 pontos (+1,44%), à tarde, o Ibovespa fechou em alta de 1,21%, aos 170.370,38 pontos. Fora Petrobras, todas as ações de grandes bancos e Vale (+0,20%) avançaram, tendo ainda Azzas (+10,48%) na liderança do campo azul, influenciada pelo movimento de vender a marca Farm Rio. Ao fim da última sessão, a varejista confirmou ter contratado o Morgan Stanley para conduzir o negócio, visto pelo JPMorgan como "potencial de destravamento de valor".
O Ibovespa ainda acumula queda de 1,97% no mês de junho, mas avanço de 5,74% em 2026.



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