Caros leitores e leitoras, há imperativos dos quais não se abre mão por razão alguma. Quando esses imperativos estão ausentes do cotidiano, perde-se o rumo, estabelece-se o caos. Diga a verdade, é um desses imperativos. Um imperativo moral imprescindível. Sua ausência em qualquer circunstância da vida é a perda do alicerce sustentador dos diálogos construtivos, do estabelecimento dos vínculos. Como dizia Champagne “os jornalistas quando fazem uma matéria ou cobrem um evento, contribuem amplamente para fazê-lo existir politicamente, quer dizer, para fazê-lo existir simplesmente”. Faço esse preâmbulo para falar sobre a arrogância, precipitação e superficialidade que têm sido, a marca registrada de certos setores da mídia. Me refiro a reportagem da Rede Record de Televisão, no programa Domingo Espetacular, aonde o próprio nome traduz a espetacularização da notícia, sem o mínimo de investigação e seriedade.
A crítica, contundente e desprovida de corporativismo, produz reações iradas, alguns aplausos entusiásticos e, sem dúvida, uma saudável autocrítica. A síndrome não reflete uma idiossincrasia da imprensa seja ela brasileira ou estunidense. Trata-se de uma patologia universal. Também nossa. Reconhecê-la é importante. Superá-la, um dever. Tomemos por exemplo, a aspiração de exercer um contrapoder que está no cerne de algumas matérias. O jornalismo doutrinário do passado, vestígio dos barões da imprensa brasileira, ressurge, frequentemente, sob o manto protetor do dogma do ceticismo.
A investigação jornalística não brota da dúvida necessária, da interrogação inteligente. Nasce, muitas vezes, de uma enxurrada de preconceitos. Há um ceticismo ético, base da reportagem investigativa. É a saudável desconfiança que se alimenta de uma paixão: o desejo dominante de descobrir e contar a verdade. Outra coisa, bem diferente, é o jornalismo de suspeita. O profissional suspicaz não tem "olhos de ver". Não admite que possa existir decência, retidão, bondade. Tudo passa por um crivo negativo que se traduz numa incapacidade crescente de elogiar o que deu certo.
O jornalismo não deve ser ingênuo. Mas não precisa ser cínico. Basta ser honrado, independente. A fórmula de um bom jornal, ou blog, reclama uma balanceada combinação de convicção e dúvida. A candura, num país marcado pela tradição da impunidade, acaba sendo um desserviço à sociedade. É indispensável o exercício da denúncia fundamentada.
Precisamos, independentemente do escárnio e do fôlego das máfias do colarinho branco, perseverar num verdadeiro jornalismo de buldogues. Um dia a coisa vai mudar. E vai mudar graças também ao esforço investigativo dos bons jornalistas. Essa atitude, contudo, não se confunde com o cinismo de quem sabe "o preço de cada coisa e o valor de coisa alguma". O repórter, observador diário da corrupção e da miséria moral, não pode deixar que a alma envelheça. Convém renovar a rebeldia sonhadora do começo da carreira. O coração do foca deve pulsar em cada matéria.
A precipitação é outro vírus que ameaça a qualidade informativa. Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada ficam reféns da fonte. Sobra declaração, mas falta apuração rigorosa. A incompetência foge dos bancos de dados. Troca milhão por bilhão. E, surpreendentemente, nada acontece. O jornalismo é o único negócio em que a satisfação do cliente (o leitor) parece interessar muito pouco.
O culto à frivolidade e a submissão à ditadura dos modismos estão na outra ponta do problema. Vivemos sob o domínio do politicamente correto. Recentemente, certos setores da imprensa demonstraram perplexidade com a condenação de Jair Bolsonaro. E poderia ser diferente? Não teria sido mais lógico questionar a falta de coerência do ex-presidente com a orientação da liturgia do cargo? O dogma do politicamente correto não deixa saída: o presidente de plantão é o mocinho e o mordomo é o vilão. O verdadeiro jornalismo não busca apenas argumentos que reforcem a bola da vez, mas, também, com a mesma vontade, os argumentos opostos. Estamos carentes de informação e faltos da boa dialética. Sente-se o leitor conduzido pela força de nossas idiossincrasias.
Por outro lado, ao tentar disputar espaço com o mundo do entretenimento, a chamada imprensa séria está entrando num perigoso processo de autofagia. A frivolidade não é a melhor companheira para a viagem da qualidade. Pode até atrair num primeiro momento, mas só no primeiro momento. Que haja punição aos que tentaram macular sem nenhuma prova, e que paguem por danos morais. A sociedade não pode ficar a mercê da espetacularização.
Espaço Crítico
Possui graduação em Administração pela Escola Superior Batista do Amazonas(1982) e especialização em Intensivo de Pós Graduação Em Adm. Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública(1993). Atualmente é PROFESSOR da Escola Superior Batista do Amazonas e professor titular da Faculdade Nilton Lins. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração de Empresas.
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