Lembro-me de uma cena da infância que nunca mais se apagou da memória: minha mãe estava comigo, na antiga loja Queive Magazine (ficava na Sete de Setembro), eu provava uma camisa e ela esperava sentada ao lado. Uma jovem senhora grávida se aproxima do local. Minha mãe ensaia ceder o lugar, mas é um senhor ao lado quem o faz. - Fique a senhora sentada, disse ele, já acomodando a futura mãe na cadeira de espaldar alto. - Muito obrigada, disse a jovem, para em seguida abrir aquele tradicional sorriso de educação. Na rua indaguei minha mãe.
Ela percebeu que seria muito complicado falar para alguém tão pequeno sobre costumes sociais, educação, valores etc. Preferiu simplesmente dizer: "as mulheres grávidas precisam de maiores cuidados! - Na América, meu filho, (ela quis se referir aos Estados Unidos) além de ceder o lugar, os homens brincam dizendo que pode estar a caminho o futuro presidente do país". Tudo isso passou. Os costumes mudaram. Hoje não se dá atenção às mulheres grávidas e muito menos aos seus filhos. Outro dia eu me lembrei desse fato, ao ver uma mulher grávida, de pé, e um jovem comodamente sentado.
E assim continuou, inclusive porque papeava com a jovem que coordenava o atendimento. Moral da história, se a sociedade não consegue se ajustar nas pequenas coisas, como vai fazê-lo nos grandes desafios? Digo isso porque percebo que o número de crianças nas ruas é cada vez maior. O problema parece não encontrar solução, porque as causas são de diversas ordens: concentração de riqueza, êxodo rural, falta de empregos, de escolas públicas em condições de ter e manter, alunos e professores a elas vinculados etc.
Enquanto isso, os exércitos da marginalidade aumentam em progressão geométrica. E daí mais violência, mais analfabetismo, mais mendicância, mais miséria, apesar do esforço isolado de muitos homens e mulheres, de Ongs etc. Destarte, uma criança que não é adequadamente alimentada ainda no ventre, pode ter deficiência cerebral irreversível. Por outro lado, a falta de formação educacional em uma criança pode torná-la uma fera, porque um ser insensível às coisas do espírito, aos valores imateriais.
Alimentação e educação formam o binômio indispensável na infância. A ciência médica ensina que sem as proteínas necessárias, o ser humano pode ficar emocionalmente abalado pelo resto da vida. Isto porque a alimentação correta e no tempo certo é responsável pelo equilíbrio psíquico da pessoa, bem como pelo equilíbrio fisiológico, e, consequentemente, pela conduta das pessoas no relacionamento social. De fato, a falta de capacidade de abstração de muitos de nossos jovens outra coisa não é senão a carência proteica havida na infância. Por outro lado, a falta de educação, de formação no sentido integral leva nossas crianças a atitudes incivilizadas.
Aliás, há uma escala que mede a inteligência das pessoas, a chamada escala Binet-Stanford. Os últimos graus da escala constituem o estado mental conhecido como oligofrenia, que significa o retardamento mental, a insuficiência do desenvolvimento intelectual.
A pessoa assim dificilmente consegue adaptar-se ao próximo, obter e conservar posições na vida. Um homem assim é quase um irracional, e existem muitos pelas cidades brasileiras, de arma em punho, matando, assaltando.
Espaço Crítico
Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Universidade Federal do Amazonas, mestrado em Administração Pública também pela UFAM e doutorado pela Universidade de Barcelona na Espanha. Foi Secretário Municipal de Administração, Diretor de Planejamento do Tribunal de Contas do Amazonas, e atualmente é Consultor de Empresas com ênfase em Planejamento Estratégico.
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