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Espaço Crítico

O relógio do tempo

Espaço Crítico
Por Flávio Lauria
29/03/2026 00h55 — em Espaço Crítico

Já passei por nomes como ‘idoso’, ‘velho”, “melhor idade”, “terceira idade”, “Sênior”, ancião”, e agora optou-se pelo termo NOLT (New Older Living Trend) ou seja, Nova tendência da vida dos mais velhos. Os homens e as mulheres que têm os rostos com os sulcos marcados pelo tempo, os cabelos acinzentados, mãos trêmulas e passos lentos/inseguros. Seria um preconceito contra o preconceito? Como se apenas o fato de criar-se um novo nome, fosse capaz de proporcionar maior respeitabilidade a eles.

Como se a mudança do vocábulo, desse-lhes mais dignidade. Como se facilitasse a travessia da maturidade para a velhice. Entretanto, tornou-os mais felizes? A velhice está batendo à nossa porta. Não adianta fingir que não a escutamos. Mesmo no Brasil, houve um aumento da longevidade e a tendência é que o contingente de velhos cresça significativamente, nos próximos anos. Portanto, é mister que haja uma preocupação séria com a qualidade de vida dos idosos. Eles que construíram uma família, com a parca aposentadoria que recebem, geralmente, vão morar com um dos filhos. Esse arranjo raras vezes dá certo. Ainda que sejam saudáveis, eles não são invisíveis, têm suas manias (por que não?) e carecem de afeto. Acolhê-los não quer dizer dar-lhes cama e comida.

Sinto-me seduzido até hoje, por um velho e grande relógio, com seus majestosos algarismos romanos, pêndulo e carrilhão, na casa de meu avô. Na verdade, só consegui entender depois a mensagem daquele relógio, que vinha a cada quarto de hora e que tanto me assustava durante as noites em que dormia na casa de meus avós. Era o recado do tempo que fugia. O tempo já havia escoado para os seus antepassados, entretanto, era como se o velho relógio, espectador de tantas cenas familiares, soubesse que o seu próprio tempo logo também estaria esgotado; então, escolhera o garoto para repassar-lhe os segredos que conhecia. Grandes figuras foram flechadas por cupido já na 3ªidade. O poeta inglês T.S. Elliot e sua musa Valerie descobriram o amor em plena velhice. Ele apaixonou-se aos 68 anos; aos 70 afirmou: O amor retribuído sempre rejuvenesce. Ciente de que os jovens não compreendiam o amor no outono da vida, o poeta declarou: Há uma coisa que não se perdoa aos velhos: que eles possam amar com o mesmo amor dos moços. O que envelhece não é o tempo. É a rotina, o enfado... Critica a postura de uma sociedade moralista: ...o preço de serem amados por seus filhos e netos é a renúncia de seus sonhos de amor. Os velhos lidam com a proibição. A maior parte das famílias é a primeira a desrespeitar a liberdade amorosa de seus idosos, como se a redescoberta para a sexualidade lhes tirasse a dignidade. É preferível vê-los solitários, assexuados, tristes, até murcharem e morrerem.

Adélia Prado, na tentativa de aceitar a passagem do tempo, diz de forma descontraída, em seu poema Parâmetro: Deus é mais belo do que eu/ e não é jovem/ Isto sim é que é consolo. Quem sou eu para discordar de Adélia...

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Flávio Lauria possui graduação em Administração pela Escola Superior Batista do Amazonas(1982) e especialização em Intensivo de Pós Graduação Em Adm. Pública pela Escola Brasileira de Administração Pública(1993). Atualmente é PROFESSOR da Escola Superior Batista do Amazonas e professor titular da Faculdade Nilton Lins. Tem experiência na área de Administração, com ênfase em Administração de Empresas.

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