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o fred vai te pegar

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KIEV As estantes na sala do apartamento de Fred estão repletas de peças de Lego, um de seus passatempos prediletos. Há também um cavaquinho e um pandeiro estampado com um verso de Cartola — “a sorrir eu pretendo levar a vida” — que o jogador leva como mantra. À primeira vista, se vê pouco de futebol, exceto por uma foto ao lado do meia Dentinho, na comemoração de um título pelo Shakhtar Donetsk, e uma miniatura da Copa do Mundo, presente do amigo Junior Morais, atacante do rival Dínamo de Kiev.

A impressão se desfaz assim que Fred se senta para conversar e sintoniza a TV no maior canal esportivo da Ucrânia, que transmitia a reprise do jogo que rebaixou o Chornomorets de Odessa para a segunda divisão: 1 a 0 para o Olimpik. “O time que venceu é lá de Donetsk, observa. Zapeando, encontra um repeteco mais interessante: Marselha x Salzburg, semifinal da Liga Europa.

A segunda suspensão por doping, que lhe roubou o primeiro semestre do ano passado, poderia ter tirado o tesão de Fred pelo futebol. Afinal, ele já havia cumprido seis meses de gancho no início de 2016 após um exame detectar a presença do diurético hidroclorotiazida, que ele sempre alegou ser fruto de uma refeição contaminada. A Agência Mundial Antidoping (Wada) recorreu à Corte Arbitral do Esporte (CAS), exigindo uma pena maior, e conseguiu tirar Fred de ação pouco após seu retorno aos gramados. O peruano Paolo Guerrero, alvo de um caso semelhante, chamou sua própria situação de “vergonhosa injustiça”. Para Fred, o castigo serviu de faísca: tão logo voltou, mostrou-se peça fundamental em um Shakhtar que venceu Napoli, Roma e Manchester City.

O sorriso largo parece importado do Rio, onde Fred morou por alguns meses em sua primeira suspensão, em 2016, quando ainda nutria esperanças de disputar os Jogos Olímpicos. Já a origem mineira, em Belo Horizonte, se manifesta tanto no estilo caseiro quanto na serenidade para comer pelas beiradas, sem alarde, quando se trata da própria carreira. Fred evita remoer os detalhes do passado. Perguntado se a palavra “injustiça” se aplica a seu caso, mostra que só quer olhar para um futuro que para ele, dez anos mais novo que Guerrero, ficou ainda mais promissor depois de ver seu nome na lista de Tite para a Rússia.

— Acho um pouco (injustiça). Mas essa questão do doping involuntário é muito complexa, é difícil discutir — pondera Fred. — Foi muito ruim, porque a coisa que mais gosto de fazer é jogar futebol. Por outro lado, amadureci muito. Se não fosse por isso, talvez pudesse já ter dado um salto maior na carreira… Mas agora tenho uma Copa para jogar. Creio que tudo está ocorrendo no tempo certo.

O “salto na carreira” a que Fred se refere é uma saída do Shakhtar Donetsk rumo às principais ligas da Europa. O futebol inglês já monitorava o volante, hoje com 25 anos, desde os tempos em que recebeu suas primeiras chances na seleção brasileira, ainda sob o comando de Dunga — que também treinou Fred no Internacional, onde foi revelado. Em janeiro, o Manchester City chegou a oferecer quase o valor total da multa rescisória, de € 70 milhões. O Shakhtar disse não — ou “ni”, em bom ucraniano.

Camisa 10 em amistoso

Fred não perde o bom humor com o jogo duro do clube. Já está acostumado: em 2016, não foi liberado para atuar na seleção olímpica que conquistou o ouro nos Jogos do Rio.

— Rapaz, está uma briga boa — diz, com um largo sorriso. — É difícil liberarem aqui. Mas já deixei claro que na próxima temporada quero buscar esse salto maior. O diretor de futebol, (Sergei) Palkin, falou que possivelmente vai me liberar. Mas agora só quero saber da Copa.

A participação de Fred na Copa parecia inimaginável até setembro do ano passado. Dois meses depois de voltar da segunda suspensão, foi convocado para a rodada final das eliminatórias. Ao receber a notícia, achou que era pegadinha. Apareceu novamente na seleção em março deste ano, e entrou no segundo tempo do jogo contra a Rússia, no estádio da final da Copa, vestindo a camisa 10 — vaga devido à ausência de Neymar, machucado.

Apesar dos momentos icônicos pela seleção e também pelo clube — nas oitavas de final da Champions, fez de falta no goleiro Alisson, da Roma, titular da seleção —, Fred acredita que ganhou a vaga na Copa longe dos holofotes, nos treinos comandados por Tite. Sentiu-se confortável e confiante, com uma naturalidade que também chamou a atenção da comissão técnica, especialmente tratando-se de um jogador mais lembrado como meia-atacante no Brasil.

— O Dunga, no Inter, foi o primeiro cara que tentou me recuar, em 2013. O time naquela época tinha Forlán, D’Alessandro, Dátolo, e ele me botou de volante para que eu não ficasse no banco. Durou pouco, eu nunca jogado assim, mas ele me deixou supertranquilo — lembra Fred. — Foi no Shakhtar que amadureci essa função. E nesta Liga dos Campeões percebi que estava jogando em um nível muito alto.

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