Início Hissa Abrahão A tragédia silenciosa do Amazonas: 28 dos 50 piores municípios do Brasil estão aqui
Hissa Abrahão

A tragédia silenciosa do Amazonas: 28 dos 50 piores municípios do Brasil estão aqui

Hissa Abrahão
Por Hissa Abrahão
21/04/2026 20h18 — em Hissa Abrahão

O Amazonas é uma das maiores contradições do Brasil. É o maior estado da Federação em território, abriga a maior floresta tropical do planeta, possui uma posição estratégica no debate ambiental global e sustenta, em Manaus, um dos principais polos industriais do país. Ainda assim, concentra 28 dos 50 municípios com pior qualidade de vida do Brasil. O dado é chocante, mas talvez não devesse surpreender tanto. Há muito tempo o Amazonas convive com uma riqueza que impressiona no mapa, mas não se converte, na mesma proporção, em dignidade para quem vive aqui.

Esse retrato ganha força porque não vem de impressão subjetiva nem de disputa política. Vem do Índice de Progresso Social, o IPS, uma metodologia internacional aplicada no Brasil para medir qualidade de vida de forma mais séria e mais completa do que a simples leitura do PIB. O IPS não pergunta apenas quanto uma região produz. Pergunta se as necessidades básicas da população estão sendo atendidas, se existe bem-estar e se há oportunidades reais de desenvolvimento. No Brasil, o índice cobre todos os 5.570 municípios com base em 57 indicadores sociais e ambientais, construídos a partir de bases públicas e oficiais, como IBGE, Inep, Ministério da Saúde, CNJ, Inpe, Anatel, CadÚnico e SNIS. É por isso que o IPS merece ser levado a sério: ele não mede propaganda, mede resultado.

E o resultado do Amazonas é um alerta severo. Ele mostra que o problema do estado não é apenas falta de renda, mas falta de transformação social. A economia existe, mas seus efeitos não se espalham. A arrecadação existe, mas não chega com a mesma força em serviços, infraestrutura e oportunidade. O crescimento existe, mas permanece concentrado. E um estado não se desenvolve de verdade quando a prosperidade fica represada em poucos pontos e o restante do território segue à margem.

A primeira explicação para isso é a concentração econômica. Manaus respondeu por 78,9% do PIB do Amazonas. Isso significa que quase toda a força produtiva do estado está comprimida na capital. O interior, em sua maioria, continua com baixa densidade econômica, pouca diversificação e forte dependência do setor público. Não se trata de desenvolvimento estadual capilarizado. Trata-se de crescimento concentrado, cercado por fragilidade regional.

A segunda explicação é logística, territorial e social. Em boa parte do interior do Amazonas, acessar um hospital, uma escola melhor equipada ou uma oportunidade de trabalho formal ainda exige longos deslocamentos e custos elevados. Essa realidade muitas vezes é tratada com romantismo por quem observa de longe. Mas não há nada de pitoresco em levar horas ou dias para alcançar o básico. Isso tem nome: exclusão. Quando a distância vira barreira permanente ao acesso a direitos, o progresso social despenca.

A terceira explicação é política. Durante décadas, o debate econômico amazonense se resumiu quase por completo à defesa da Zona Franca de Manaus. Essa defesa é legítima, estratégica e indispensável. Mas ela não poderia ter sido a única agenda. Um estado do tamanho e da importância do Amazonas precisava ter discutido, com igual seriedade, como interiorizar desenvolvimento, como diversificar sua base econômica e como transformar sua floresta em ativo legal, sustentável e gerador de renda. Essa conversa ficou pequena demais para a dimensão do problema.

No fundo, a tragédia silenciosa do Amazonas é esta: o estado tem patrimônio, escala, relevância e potencial, mas falha em entregar qualidade de vida na mesma medida. Falta menos discurso sobre grandeza e mais capacidade de converter riqueza em resultado concreto. Falta menos contemplação da própria importância e mais compromisso com a vida real de quem mora fora dos centros de poder.

O Amazonas não é pobre por falta de ativos. É pobre por falta de distribuição de oportunidades, por concentração histórica de desenvolvimento e por ausência de um projeto que pense o estado inteiro. Enquanto essa verdade continuar sendo evitada, seguiremos ostentando grandeza no mapa e convivendo com abandono no cotidiano. E esse talvez seja o retrato mais cruel de todos: um estado monumental em riqueza natural, mas ainda pequeno na capacidade de fazer essa riqueza chegar ao povo.

Hissa Abrahão

Hissa Abrahão

Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.

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