Max Weber ensinou que o Estado é quem detém o monopólio e autorização do uso legítimo da força. No Amazonas, essa exclusividade não existe.
O Amazonas está perdendo uma guerra que insiste em não reconhecer. Enquanto autoridades comemoram operações pontuais, apreensões de drogas e prisões isoladas mínimas, a realidade mostra algo muito mais preocupante: o crime organizado consolidou presença em partes significativas do território amazônico e opera com uma capacidade logística que muitas vezes supera a do próprio Estado.
Não estamos falando apenas de criminalidade comum. Estamos falando de organizações criminosas altamente estruturadas, com hierarquia, divisão de funções, controle territorial, inteligência, recrutamento e capacidade financeira bilionária. Facções disputam rotas fluviais, dominam comunidades, impõem regras, cobram taxas, resolvem conflitos e exercem, na prática, funções que deveriam pertencer exclusivamente ao poder público.
O problema é que o Amazonas possui uma combinação explosiva. Está localizado na principal rota da cocaína produzida na Colômbia, no Peru e na Bolívia. Os rios amazônicos transformaram-se em verdadeiras rodovias do narcotráfico internacional. A droga entra pelas fronteiras, percorre milhares de quilômetros por vias fluviais e chega aos grandes centros consumidores do Brasil e do exterior. Quem controla essas rotas controla bilhões de reais.
O resultado dessa realidade é visível. Em diversas localidades, a presença estatal é precária, enquanto a presença criminosa é constante. O cidadão sabe quem manda. O comerciante sabe quem manda. O morador sabe quem manda. E, muitas vezes, a ordem não vem de um delegado, de um juiz ou de um prefeito. Vem de um líder criminoso que exerce poder efetivo sobre aquele território.
O mais grave é que continuamos tratando esse fenômeno como se fosse apenas um problema policial. Não é. Trata-se de um problema de soberania. Quando organizações criminosas conseguem controlar áreas, influenciar economias locais, intimidar moradores e desafiar permanentemente as forças de segurança, estamos diante de um enfraquecimento concreto da autoridade estatal.
O próprio Banco Mundial já alertou que a violência e o crime organizado prosperam justamente onde o Estado é fraco, onde há baixa capacidade institucional, deficiência de informações, ausência de coordenação e incapacidade de ocupar efetivamente os territórios mais vulneráveis. Também demonstra que simplesmente gastar mais dinheiro ou prender mais pessoas não resolve o problema quando não existe inteligência, planejamento e presença estatal permanente.
E aqui está a maior falha do Amazonas. O Estado reage, mas raramente antecipa. Corre atrás do crime em vez de se posicionar à frente dele. Realiza operações episódicas enquanto as organizações criminosas trabalham todos os dias. Apreende toneladas de drogas, mas as rotas continuam funcionando. Prende integrantes, mas as estruturas permanecem intactas. Substitui nomes, mas não desmonta os sistemas.
Enquanto isso, o cidadão comum paga a conta. Paga com medo, com restrições à liberdade, com prejuízos econômicos, com perda de investimentos, com o enfraquecimento do turismo e, em muitos casos, com a própria vida.
A verdade é dura, mas precisa ser dita. O Amazonas não enfrenta apenas uma crise de segurança pública. Enfrenta uma crise de autoridade estatal. E nenhum governo conseguirá resolver esse problema enquanto continuar fingindo que o crime organizado é apenas um caso de polícia. O que está em jogo não é apenas a redução dos índices criminais. O que está em jogo é a capacidade do Estado brasileiro de exercer sua soberania sobre o próprio território.
Se o Estado não ocupar esses espaços, alguém ocupará. E, infelizmente, em muitas partes da Amazônia, esse alguém já chegou há muito tempo - CV, PCC e mais algumas outras facções - menos conhecidas.
Hissa Abrahão
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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