Por Howard Schneider
WASHINGTON, 2 Mar (Reuters) - A economia dos Estados Unidos, que resistiu a um ano de choques comerciais, imigratórios e de outras naturezas, agora enfrenta um novo desafio que provavelmente aumentará a incerteza, após a decisão do presidente Donald Trump de lançar ataques sem prazo definido contra o Irã.
O objetivo declarado de Trump é o de derrubar o governo islâmico, que governa o país do Oriente Médio há décadas.
Com contra-ataques em curso por toda a região e Trump afirmando que o conflito pode durar pelo menos algumas semanas, os analistas têm pela frente uma longa lista de incógnitas. Os preços do petróleo subiram no fim de semana de US$70 para quase US$80 o barril, e o transporte marítimo pelas rotas petrolíferas estratégicas no Estreito de Ormuz começou a diminuir.
Embora os EUA estejam mais protegidos contra choques energéticos do que muitos de seus aliados, devido à produção interna de petróleo e gás, o impacto global sobre o comércio, os preços e os investimentos pode ter repercussões e comprometer a perspectiva de crescimento otimista que vinha se consolidando para este ano.
Uma pesquisa recente do Conference Board mostrou que a confiança dos CEOs nas perspectivas para a economia dos EUA e seus respectivos setores aumentou, mas quase 60% afirmaram que existe um alto risco de que as tensões geopolíticas possam ser uma força disruptiva.
O Banco Mundial, em sua análise mais recente da economia dos EUA, descreveu as perspectivas como "otimistas", uma avaliação que agora terá que resistir ao conflito imprevisível em uma importante região produtora de petróleo, com implicações para o transporte marítimo global, as cadeias de suprimentos e os preços das commodities.
"Um dos pilares da nossa perspectiva para 2026 era a 'desaceleração' observada em relação à política dos EUA. Os dados do início do ano sugeriam que as empresas estavam superando a paralisia nas contratações e nos investimentos de capital não tecnológicos e começando a aplicar seus lucros e capital resilientes", escreveu Joseph Lupton, economista do JPMorgan, em uma nota no fim de semana, após o início do bombardeio americano ao Irã.
"Essa recuperação incipiente agora está em risco. Uma guerra militar, somada à atual 'guerra comercial' dos EUA, poderia reacender as preocupações com a estabilidade global."
A extensão desse impacto e uma possível influência sobre a política monetária do Federal Reserve dependem de quanto o conflito eleva os preços globais do petróleo e se ele ameaça se intensificar e se ampliar com o tempo, ou evoluir para uma luta de poder interna no Irã.
No fim de semana, um ataque aéreo matou o líder supremo iraniano, Ali Khamenei.
A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 representou riscos globais semelhantes. A reação inicial do Fed ao conflito foi cautelosa, com as autoridades reduzindo os planos para um grande aumento inicial da taxa de juros.
As preocupações do Fed rapidamente se voltaram para um forte aumento da inflação, e os aumentos das taxas de juros foram acelerados.
"O conflito com o Irã é uma incógnita, embora os mercados possam perder rapidamente o interesse se a situação parecer prestes a se transformar de um conflito regional em um conflito interno", escreveu nesta segunda-feira Tim Duy, economista-chefe para os EUA da SGH Macro Advisors.
Em uma nota separada, o presidente e CEO da SGH, Sassan Ghahramani, natural de Teerã e filho de um diplomata iraniano de antes da revolução islâmica de 1979, apontou para a incerteza do momento atual, com a possibilidade de uma guerra civil no país, bem como de uma "tática de 'terra arrasada' de escalada de Teerã para (outros) centros civis... para atingir a economia global e pressionar pelo fim da guerra".
RISCO DE CAMPANHA PROLONGADA
O impacto inicial no mercado parece contido. Os contratos futuros de juros mostraram pouca alteração nas expectativas de que o Fed cortará as taxas em suas reuniões de 28 e 29 de julho e 15 e 16 de setembro. O rendimento do título do Tesouro americano de 2 anos caiu durante o fim de semana, uma reação comum em momentos de crise global, quando os investidores buscam ativos de refúgio.
No entanto, os rendimentos dos títulos do Tesouro estavam subindo nesta segunda-feira, possivelmente um sinal de preocupação com o aumento da inflação, pelo menos globalmente. O dólar, outro ativo de refúgio, valorizou-se em relação a uma cesta de moedas principais. Os principais índices de ações dos EUA apresentavam desempenho misto nesta tarde.
"Não esperamos que os desenvolvimentos geopolíticos afetem significativamente os planos de taxa de juros do Fed, com um risco moderado de alta para a inflação compensado por condições financeiras menos favoráveis" e um foco em dados domésticos, escreveram analistas do Citi em uma nota nesta segunda-feira.
"Esperamos 55.000 novos empregos e uma taxa de desemprego de 4,4% na sexta-feira, um indicador que deve manter as autoridades do Fed otimistas quanto à estabilização do mercado de trabalho."
O Departamento do Trabalho dos EUA deve divulgar seu relatório de emprego referente a fevereiro na sexta-feira.
Jason Thomas, chefe de pesquisa global e estratégia de investimento da Carlyle, observou, no entanto, a dificuldade de prever para onde o conflito no Oriente Médio levará.
Ele atribuiu apenas 30% de chance ao sucesso de Trump em substituir o atual regime iraniano, sendo provável que a Guarda Revolucionária Islâmica seja capaz de adotar uma resposta "assimétrica" que pode se estender além de pontos de estrangulamento óbvios, como o Estreito de Ormuz.
Drones iranianos atingiram instalações de gás natural no Catar, levando o país a interromper a produção de GNL em instalações que utilizam o Estreito.
Mas Thomas afirmou estar focado em "uma probabilidade de 70% ou mais, como cenário base, de uma campanha assimétrica prolongada, incluindo atividades cibernéticas, terrorismo e forças aliadas que poderiam envolver o Iraque, o segundo maior produtor da Opep". Embora o poder dos EUA esteja concentrado no Irã, "quem está protegendo o GNL de Moçambique?", questionou.
(Reportagem de Howard Schneider)

