Por Tim Reid e Joseph Ax e Hannah Beier
DOYLESTOWN, Pensilvânia, 29 Jun (Reuters) - Betsy Halsey, de 63 anos, ainda guarda recordações do bicentenário dos Estados Unidos, em 1976, no quarto onde passou a infância, na casa dos pais. Mas a professora aposentada está tão indignada com o presidente Donald Trump que se recusa a comemorar o 250º aniversário do país.
“Não quero estar na mesma festa com pessoas que se mostram entusiasmadas com o rumo que nosso país está tomando”, disse Halsey, uma eleitora habitual do Partido Democrata que mora em Doylestown, na Pensilvânia.
Dan Marrazzo, 70, republicano e dono de uma lavanderia que mora na vizinha Langhorne Manor, está pronto para comemorar, acreditando que os Estados Unidos sob o governo de Trump estão prosperando, e vai marcar a ocasião preparando uma refeição para amigos e familiares. “A pessoa mais pobre dos Estados Unidos tem um estilo de vida melhor do que algumas das pessoas mais ricas do resto do mundo”, disse ele.
Enquanto os EUA se preparam para o 250º aniversário da Declaração de Independência do Reino Unido, de 4 de julho de 1776, as divisões políticas que marcaram a era Trump estão colocando à prova o que tradicionalmente é um ritual de verão unificador: celebrar a fundação do país com fogos de artifício, desfiles e bandeirinhas vermelhas e brancas.
Com Trump deixando sua marca na comemoração oficial e com seu segundo mandato na Casa Branca marcado por políticas polarizadoras sobre imigração, economia e relações exteriores, muitos norte-americanos estão tendo dificuldade em separar a política da pompa.
“A própria ideia de comemorar tornou-se política e partidária”, declarou Beverly Gage, historiadora da Universidade de Yale. “O que chama a atenção neste momento é o quanto o pessimismo parece estar generalizado.”
Um em cada cinco norte-americanos afirma que não comemorará o Dia da Independência este ano — incluindo um quarto dos democratas e 8% dos republicanos —, de acordo com uma pesquisa Reuters/Ipsos. Dois em cada cinco não acreditam que o país sobreviverá por mais 250 anos.
Para entender melhor como os norte-americanos se sentem em relação ao aniversário, a Reuters entrevistou mais de duas dúzias de moradores, ativistas, historiadores e autoridades eleitas no condado de Bucks, onde Halsey e Marrazzo moram.
Outrora um reduto político isolado, o condado de Bucks é hoje um microcosmo das divisões culturais e partidárias que abalam os EUA. Região profundamente dividida em um Estado decisivo para as eleições, a Pensilvânia, é um condado onde Trump venceu por menos de 300 votos, de um total de cerca de 400 mil votos expressos em 2024.
MARCA DE TRUMP
Trump se colocou no centro das comemorações do aniversário do país.
No ano passado, a Casa Branca criou o Freedom 250, uma parceria público-privada, para organizar eventos de aniversário, apesar da existência da America250, uma comissão criada pelo Congresso que vinha planejando atividades há anos.
O principal evento da Freedom 250 é a Great American State Fair, uma exposição de duas semanas no National Mall. Trump realizou um comício no estilo de campanha para dar início à feira e fará um segundo comício no dia 4 de julho, o que tem gerado críticas de que ele está transformando a comemoração da nação em um evento político.
Vários Estados governados por democratas e diversos artistas musicais se recusaram a participar devido a preocupações de que a feira estivesse intimamente ligada a Trump. Enquanto isso, a Casa da Moeda dos EUA planeja emitir uma moeda comemorativa de ouro do 250º aniversário com a efígie de Trump.
No condado de Bucks, Tabitha Dell’Angelo disse estar tão consternada com o rumo que o país está tomando sob o governo de Trump que não planejava comemorar o 4 de julho, algo que normalmente faria.
“Amo meu país. Sou uma norte-americana orgulhosa”, afirmou a professora universitária de 56 anos e ex-membro democrata do conselho escolar. “Mas essa versão da comemoração não parece ser sobre os Estados Unidos, e sim uma celebração de Trump.”
Em entrevistas, os moradores disseram que o feriado — apesar de seus temas tradicionais de identidade nacional e história compartilhada — pouco contribuiu para diminuir suas preocupações com as divisões locais e nacionais.
Muitos estavam debatendo questões que atingem o cerne do que significa ser norte-americano: ainda existem princípios que unificam o país? Ou o partidarismo fragmentou tanto os eleitores que eles colocam o partido acima do patriotismo?
Jim Worthington, 69, apoiador de Trump e dono de uma academia, não consegue entender por que alguém deixaria de participar das comemorações do 250º aniversário. Ele acredita que a longevidade da existência dos Estados Unidos é uma maravilha que merece ser homenageada, independentemente de quem seja o presidente.
“Esta é uma celebração de 250 anos de história, a maior experiência da história do mundo”, disse Worthington.
O vereador de Doylestown Connor O’Hanlon, de 30 anos, democrata, observou que os membros de sua geração passaram toda a vida adulta em uma era hiperpartidária marcada por “um niilismo e cinismo generalizados em relação ao rumo que nosso país está tomando”.
Esses sentimentos contraditórios deixaram os organizadores locais dos eventos de 4 de julho diante de uma tarefa desafiadora: como comemorar o feriado sem afastar grande parte da população.
Dick Creter, cuja organização sem fins lucrativos America Celebrates está promovendo comemorações em New Hope, na Pensilvânia, e na vizinha Lambertville, em Nova Jersey, disse que várias pessoas buscaram garantias de que o programa seria apartidário.
“Acho que deixar a comemoração dos nossos 250 anos passar sem abraçá-la, independentemente da sua posição política, é um erro”, disse Creter.
(Reportagem adicional de Jason Lange em Washington)



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