Por Roberto Samora
SÃO PAULO, 10 Mar (Reuters) - Com acordos de prestação de serviços anunciados neste ano junto a dois frigoríficos de Rondônia, a Frigol deverá tirar parte da diferença que a separa do terceiro colocado no mercado de carne bovina do Brasil ao elevar a produção em 60% em 2026.
Para isso, conta com a ampliação de vendas à China, apesar das cotas restritivas impostas pelo país asiático, e com a força da pecuária rondoniense, que proporciona produção de valor agregado, disse o CEO da companhia, Luciano Pascon, à Reuters.
A China, maior importador de carne bovina do Brasil, respondendo por quase metade dos negócios externos do país, impôs uma tarifa adicional de 55% para exportações fora de uma cota de pouco mais de 1 milhão de toneladas para os frigoríficos brasileiros, um fator que tem influenciado decisões no mercado nacional em 2026.
Essa salvaguarda poderia limitar as vendas do Brasil ao país asiático, e foi considerada pela empresa na efetivação dos acordos de prestação de serviços com a DistriBoi e RioBeef, que possuem unidades em Rondônia habilitadas a exportar à China. Elas dão maior flexibilidade para a Frigol manter o crescimento nos embarques aos chineses, na avaliação de Pascon.
"Foram várias variáveis que nos fizeram ir por esse caminho. Uma delas foi essa (a cota da China), mas não só essa. Tivemos a questão da regionalidade, queríamos diversificar um pouco mais a nossa originação de matéria-prima... nós estamos em São Paulo e no Pará, queríamos ter também uma outra região", explicou Pascon.
Além disso, afirmou o executivo, o acordo com a DistriBoi permite a exportação aos Estados Unidos, que também está entre os principais mercados para a carne brasileira.
"Nós não tínhamos Estados Unidos, nós já queríamos nos adiantar a uma curva de aprendizado aí para acessar o mercado americano", comentou.
Mas garantir maior acesso à China em um mercado com competição acirrada pela cota sempre é interessante.
"Com essas duas plantas habilitadas para China (do DistriBoi e RioBeef), hoje a Frigol passa a ser a quarta maior exportadora para o mercado chinês", destacou.
Pascon disse ainda que a pecuária de Rondônia é "muito estruturada", "uma das melhores do país, com alto índice de produtividade", o que ajuda na expansão no mercado interno.
"Temos um mercado interno muito forte no varejo, nós também produzimos cada vez mais linhas especiais e linhas de açougue completo... O padrão dos animais de Rondônia também confere um maior volume de produção para nós, para essas linhas que agregam mais valor", completou.
RECEITA DE R$7 BI EM 2026
Os acordos com as duas companhias com operações em Rondônia, que incluem ao todo três unidades, permitirão um crescimento de 60% na produção de carne bovina, com os abates saltando da faixa de 650 mil cabeças em 2025 para mais de 1 milhão neste ano.
Pelas parcerias, a Frigol passa a ser responsável pela compra dos animais e pela comercialização dos produtos, enquanto a DistriBoi e a RioBeef realizam o abate, a desossa e o processamento em suas unidades.
Na avaliação de Pascon, com o movimento, a Frigol ainda ficaria cerca de 500 mil cabeças/ano abaixo do terceiro colocado, que seria a MBRF, em um mercado que tem também outras gigantes, como Minerva e JBS.
O crescimento da companhia será suportado, entre outros fatores, pela emissão de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) de R$250 milhões, além de outras linhas de financiamento que vão garantir o capital de giro. "Nas nossas avaliações, esse capital de giro usado no início dessas operações novas deve retornar para o caixa no máximo em 12 meses. Então é uma operação em que o capital de giro se paga aí num prazo curto."
O CEO projeta que a receita da Frigol, empresa da família Gonzaga Oliveira, que atua no setor de carnes desde a década de 1970, vai se aproximar de R$7 bilhões em 2026, um salto ante o faturamento bruto de R$4,5 bilhões de 2025.
No ano passado, a companhia teve lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de R$323,9 milhões, avanço de 81% na comparação anual, com margem de 7,6%.
Em 2025, as exportações representaram 56% do faturamento, ante 52% no ano anterior, com a China mantendo-se como principal destino, seguida por Israel.
Na avaliação de Pascon, a continuidade da guerra no Oriente Médio não é um fator muito preocupante para exportação de carne bovina do Brasil, na medida em que apenas cerca de 7% dos embarques vão para essa região, e aproximadamente somente metade disso tem restrição para transporte pelo Estreito de Ormuz.
"A Arábia Saudita, Catar... estão conseguindo internalizar o produto. Então eu vejo que talvez, assim, diretamente para o Brasil, o impacto seja pequeno na carne bovina", disse ele, lembrando ainda que o mundo tem um déficit no mercado de proteína bovina, algo que sustenta também os planos de expansão.
(Por Roberto Samora)

