As crises no Oriente Médio estão começando a se unir e contaminar umas as outras. Aviões israelenses dispararam mísseis contra a base aérea militar T4, na Síria, na segunda-feira, enquanto outros jatos israelenses realizavam ataques a Gaza. O presidente Donald Trump deve decidir se vai ou não ordenar ataques aéreos contra as forças do governo sírio como punição pelo suposto lançamento de bombas cheias de cloro em uma parte controlada por rebeldes em Douma, subúrbio de Damasco.
Trump terá dificuldade de não fazer algo impressionante depois de denunciar o “animal Assad” e prometer que o líder sírio “pagaria o preço” pelo ataque com gás. Trump também denunciou o ex-presidente Barak Obama por sua timidez no uso da força militar contra Bashar al-Assad, logo os EUA devem fazer algo espetacular.
O que é mais duvidoso é se os ataques aéreos americanos terão impacto a longo prazo. Em muitos aspectos, a situação política no território sírio se consolidou. A Síria está sendo dividida em três zonas de tamanho desigual: Assad, apoiado pela Rússia e pelo Irã, controla grande parte do país; facções árabes sunitas, apoiadas pela Turquia em Idlib, dominam a recém-capturada cidade de Afrin e o território ao norte de Aleppo; no Norte e no Leste, um grande triângulo a leste do Eufrates é controlado pelos curdos, apoiados por dois mil soldados dos EUA, capazes de mobilizar poder aéreo maciço. Mesmo ataques aéreos pesados e concentrados dos EUA não irão alterar significativamente esse equilíbrio de poder.
Ainda é um mistério por que Assad provocaria os EUA e os europeus justamente em seu momento de vitória em Damasco. O chanceler russo, Sergei Lavrov, disse que especialistas do país conseguiram entrar no hospital em Douma, onde ocorreu o ataque químico — o que sugere que a cidade foi retomada — e entrevistar testemunhas. “Nossos especialistas militares visitaram esse lugar e não encontraram qualquer traço de cloro ou qualquer outra substância química usada contra civis”, disse.
No entanto, só porque um ataque com gás venenoso a esta altura do campeonato seria uma coisa estúpida por parte do governo sírio, não significa que este não o fez. Como acontece com muitas outras atrocidades na guerra da Síria, há sempre um resíduo de dúvida sobre o que realmente aconteceu devido à falta de relatos e investigações independentes.
Trump está descobrindo que há limites para o poder dos EUA na Síria, o qual depende principalmente de ataques aéreos, enquanto as forças curdas das Unidades de Proteção do Povo (YPG) atuam na limpeza do solo. Mas, depois da queda de seu enclave em Afrin, os curdos se mobilizam para conter o Exército turco e seus auxiliares árabes, muitos deles jihadistas. A longo prazo, buscam um acordo com Assad e não têm intenção de combatê-lo.
Em geral, o instinto de Trump de sair da Síria depois da eliminação do Estado Islâmico é coerente, e as ambições intervencionistas do de Washington dependem de um excesso de otimismo. O que torna a atual situação mais perigosa é a presença de fatores imprevisíveis. Washington pode se tornar mais agressiva com a posse dos novos assessor de Segurança Nacional, John Bolton, e secretário de Estado, Mike Pompeo. Mas o rápido descarte de seus antecessores pode indicar que esses superfalcões terão menos influência do que eles esperavam e outros temiam.
Quanto a Israel, a crise na Síria vem como um desvio útil da crise em Gaza, mas a segunda não vai desaparecer. À medida que Assad se fortalece, Israel vai querer flexionar seus músculos militares, mas isso não significa que queira necessariamente travar uma guerra com a Síria ou o Hezbollah, apesar da retórica beligerante de todos os lados.
À medida que nos aproximamos de 12 de maio — quando Trump terá que decidir se sairá mesmo do acordo nuclear com o Irã — diferentes crises contribuem para elevar a temperatura na região. Numa situação tão complexa, pode ser que nenhum país queira uma guerra ampla, mas eles poderiam facilmente se deparar com uma.

