PYEONGCHANG — No ringue o resultado foi negativo: um massacre por 8 a 0 para a seleção suíça. Mas no campo diplomático, o time feminino de hóquei no gelo que unificou atletas das Coreias do Sul e do Norte ganhou atenção internacional. Para a americana medalhista olímpica e quatro vezes campeã mundial na modalidade Angela Ruggiero, membro do Comitê Olímpico Internacional, o feito histórico merece indicação ao Prêmio Nobel da Paz.
— Em amaria se a equipe ganhasse o Prêmio Nobel da Paz — disse Ruggiero, em entrevista à Reuters, dizendo que irá pedir a outros membros do comitê pela indicação. — Como alguém que competiu em quatro Olimpíadas e sabe que não se trata sobre você, seu time ou seu país, eu vi o poder disso na noite passada.
A partida histórica aconteceu na noite de sábado, sob os olhares do presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e da representante do governo norte-coreano, Kim Yo-jong, irmã do líder Kim Jong-un, além do presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach. A arena estava lotada, apesar de a equipe com atletas das duas Coreias não ter chances contra a poderosa Suíça, bronze na última Olimpíada de Inverno. Para os torcedores, o desempenho esportivo era o que menos importava:
— Eu me sinto bem e emocionado. Me sinto sortudo por ver um jogo histórico. Isso irá contribuir para a paz entre as Coreias — comentou Jang Sung-ho, que foi à arena olímpica com outros sete familiares.
A Suíça abriu o placar logo no início do primeiro período com Alina Muller, que marcou quatro vezes na partida. Phoebe Staenz e Lara Stalder, com dois gols cada, completaram o resultado. Do lado coreano foram poucas as oportunidades, mas a técnica Sarah Murray, uma canadense de 29 anos, não culpou a falta de entrosamento entre as jogadoras. A seleção foi formada às pressas, com a incorporação de 12 atletas norte-coreanas.
— Nós estamos curtindo o trabalho com as jogadoras norte-coreanas — disse Sarah, que utilizou três atletas norte-coreanas durante a partida. — Elas trabalham duro, querem aprender, querem melhorar. Obviamente o tempo foi curto.
Para Jong Su-hyon, uma das jogadoras norte-coreanas que participaram do jogo, o time deveria continuar unificado após a Olimpíada.
— Como um nós somos mais fortes que divididas — disse ela. — Como um time unificado espero que possamos avançar juntas. E acho que vamos nos destacar como uma equipe unificada, não apenas no esporte, mas também em outras áreas.
As duas Coreias estão tecnicamente em guerra desde o armistício de 1953, e nos últimos anos a tensão na Península Coreana se acirrou com provocações de ambos os lados e o avanço do programa nuclear norte-coreano. A Olimpíada de Inverno de Pyeongchang abriu uma oportunidade para a reaproximação dos dois países.
A presença de Kim Yo-jong marca a primeira visita de um membro da família Kim ao vizinho do sul desde a Guerra da Coreia. No sábado, ela entregou um convite feito por seu irmão a Moon, para uma visita à Pyongyang. Neste domingo, a comitiva norte-coreana retornou ao país.
Mas a reaproximação não é vista com bons olhos por todos. O vice-presidente americano, Mike Pence, evitou contato com a delegação norte-coreana e, em declaração neste sábado, reafirmou a exigência do abandono do programa nuclear por parte de Pyongyang.
— Não há desacordo entre os EUA, a República da Coreia (Coreia do Sul) e o Japão sobre a necessidade de continuar isolando a Coreia do Norte economicamente e diplomaticamente até que eles abandonem seus programas nuclear a balístico — disse Pence a repórteres, durante o voo de retorno aos EUA.
No mês passado, um oficial da Casa Branca afirmou que o vice-presidente compareceria à Olimpíada de Inverno para cumprimentar os atletas americanos e contra-atacar qualquer tentativa norte-coreana de “sequestrar” os jogos com uma campanha de propaganda.
Neste domingo, a agência estatal norte-coreana de notícias informou que a delegação enviada ao vizinho do sul conduziu conversas “francas e sinceras”, mas a retomada dos contatos ainda é vista com ceticismo por alguns setores da sociedade sul-coreana. Neste domingo, centenas de manifestantes marcharam em Seul, acusando o presidente de permitir a “propaganda” norte-coreana no país, minando a aliança militar com os EUA.
Partidos de oposição alertam que as conversas entre as duas Coreias onde o encerramento do programa nuclear não é uma pré-condição apenas “beneficia o inimigo”.
— Nós devemos ter em mente que qualquer conversa onde a desnuclearização não é uma pré-condição apenas dá à Coreia do Norte mais tempo para alcançar suas capacidades nucleares enquanto nos enganam com sua ofensiva de paz de fachada — alertou Chang He-won, porta-voz do Partido Coreia Liberdade.
No Japão, o jornal “Yomiuri Shimbun” seguiu a mesma linha em editorial publicado neste sábado, alertando que o diálogo é sem sentido se o objetivo não for a desnuclearização.
“O que não pode ser negligenciado é que Moon não exigiu diretamente que a Coreia do Norte abandone o seu desenvolvimento nuclear”, destacou o jornal. “Moon deve estar ciente de que ele deve exigir a desnuclearização da Corte do Norte, não depender do diálogo entre os EUA e a Coreia do Norte”.

