Por Bruna Cabral
MARICÁ, Rio de Janeiro, 6 Mai (Reuters) - Indígenas de uma aldeia no litoral do Rio de Janeiro fundaram um time profissional de futebol apenas com jogadores de povos originários de todo o país para disputar o Campeonato Carioca, mas a verdadeira razão está muito além de marcar gols e buscar vitórias: usar o esporte como plataforma de visibilidade, cidadania e afirmação.
“O pensamento primeiro era formar o time, jogar o Carioca. Não ser campeão, mas sim dar visibilidade a todo esse povo que é muito sofrido, diretamente defendendo sua terra”, disse em entrevista à Reuters o cacique Tupã Nunes, presidente do clube e líder da aldeia Mata Verde Bonita, em Maricá, onde vivem indígenas Guarani Mbya.
“Nós queremos combater o racismo, combater todos esses preconceitos que a gente passa por ter a nossa maneira de ser”, afirmou. “Desde jovem eu acreditei que, jogando muita bola, futebol bem arte, futebol bem jogado, você pode quebrar os corações de pedra que um dia não entenderam o seu sonho, o seu projeto, o seu povo.”
À frente da equipe está o técnico Huberlan Silva, que conta que a montagem do elenco exigiu uma busca ativa por talentos indígenas em várias regiões do país. Embora boa parte dos jogadores já tenha passagem pelo futebol profissional, o grupo reúne também atletas amadores, tendo recebido inscrições inclusive pelo Instagram.
“Eu tenho que ligar para empresários do Pará, de Rondônia, do Amazonas, do Acre, da Paraíba. Onde sei que há comunidades indígenas, eu ligo para saber onde tem um talento escondido, alguém que não teve oportunidade e que, vindo para cá, possa se tornar um atleta profissional de alto rendimento”, afirmou.
O atacante Edilson Karai Mirim, grafista e influenciador digital da aldeia Mata Verde Bonita, atua pintado nas partidas e explica que o grafismo aplicado ao corpo simboliza proteção, identidade e a própria trajetória de luta do povo Guarani.
"Eu gosto de andar pintado porque ali eu mostro a minha cultura, o meu trabalho, o meu grafismo", disse. "Isso significa muito para mim, porque está representando o meu povo e a minha história, a história de um povo que nunca desistiu”.
O Originários conta com o apoio de Anderson Terra, presidente do Instituto Terra do Saber e cacique juruá da aldeia Mata Verde Bonita — título concedido a não indígenas pela liderança local. Segundo ele, a criação do time também surgiu como estratégia para oferecer novas perspectivas aos jovens e afastá-los de contextos de vulnerabilidade, marcados pelo álcool e pelas drogas.
“O principal objetivo do Originários é, acima de tudo, trazer cidadania e quebrar paradigmas”, diz.
Se o Originários já se consolida como símbolo de representatividade e resistência, os planos vão além do Campeonato Carioca. Tupã Nunes sonha em ver seus guerreiros-águias -- ave que estampa a camisa do clube -- voarem mais alto, chegando a grandes clubes do país, à Europa e, quem sabe, à seleção brasileira.
“A gente pensa grande. Meu sonho é grande. Quero ver atletas do Originários abrindo portas para jogar no Flamengo, Botafogo, Fluminense, outros times do Brasil, ou na Europa. Mas também quero alcançar a seleção brasileira”, afirma.
(Por Bruna Cabral; edição de Pedro Fonseca)



