O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões de bens do presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, por suspeitas de que ele tenha desviado a destinação de 21 emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato eletivo. Segundo a investigação da Polícia Federal, o dirigente teria utilizado servidores da Câmara dos Deputados para direcionar a ele mesmo recursos do orçamento secreto - caso revelado pelo Estadão em maio de 2021.
A reportagem pediu manifestação de Valdemar sobre a decisão. O espaço está aberto.
"Não restam dúvidas de que as ações ora investigadas causaram prejuízo ao erário, no ponto em que emendas representativas de mais de R$ 119 milhões foram forjadamente encaminhadas e desviadas. O fato de que um terceiro não atuante no parlamento brasileiro tinha o poder e a ingerência sobre o direcionamento do orçamento público é gravíssimo e materializa o que de mais nefasto há em termos de desvios envolvendo o tema do orçamento secreto", anotou o ministro na decisão de 34 páginas.
"Se tomarmos o mais condescendente dos quadros, e considerarmos os desvios 'apenas' das emendas já pagas, temos uma consolidação de um desvio de R$ 104 milhões", diz trecho do relatório da PF enviado a Dino. Os investigadores suspeitam que o presidente do PL - condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no Mensalão - foi "beneficiário" direto dos R$ 104 milhões desviados.
A investigação da Polícia Federal na Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025, aponta que Valdemar "contava com autonomia para direcionar recursos de emendas conforme sua cota pessoal e particular, atribuída a partir de sua condição de presidente da sigla".
O direcionamento das emendas, segundo a PF, era operado por Mariângela Fialek, conhecida como "Tuca", ex-assessora do deputado federal e ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). Ela trabalhou no gabinete de Lira entre março de 2021 e o início de 2025, quando passou a atuar na liderança do Progressistas (PP) na Casa, partido do ex-presidente da Câmara.
Principal alvo da Operação Transparência, Mariângela Fialek teve seu aparelho celular analisado pela Polícia Federal, que constatou um "arranjo decisório paralelo" para a destinação de verbas públicas, no qual Valdemar aparece como responsável pela definição e pelo remanejamento de emendas.
"No caso analisado, um não parlamentar, ex-deputado cassado, presidente de uma importante sigla do Congresso, dispõe dos serviços de Fialek e de outros servidores da Câmara dos Deputados para destinar recursos conforme seus interesses, em sintomas inequívocos do cometimento dos crimes de peculato", escreveu Dino.
Planilhas do 'VCN'
Os federais à frente da Operação Transparência relataram ao ministro Flávio Dino que planilhas eram formalizadas com indicações diretas de emendas atribuídas a Valdemar. As planilhas eram tratadas, analisadas e condensadas por servidores da Câmara dos Deputados antes do encaminhamento aos ministérios.
Segundo a investigação, as emendas eram registradas em nome de deputados federais, que apareciam como responsáveis pelas solicitações, embora a definição dos recursos partisse de Valdemar. Para a PF, esse procedimento dava aparência de legalidade às indicações feitas pelo presidente do PL.
"Conforme se observa, fala-se de um volume considerável de emendas parlamentares indicadas por uma pessoa não detentora de mandato. Ainda que algumas planilhas não tenham capacitado a completa identificação dos valores destinados ao ex-deputado, algumas conversações delineiam que os patamares financeiros reservados ao investigado eram absolutamente significativos", afirmou Dino na decisão.
É nesse contexto investigativo que surge Nara Benedetti Nicolau Brum, servidora da Câmara dos Deputados lotada na liderança do PL, apontada como agente central na engrenagem de tratamento e encaminhamento de emendas parlamentares por Valdemar.
A partir dos diálogos coletados na Operação Transparência, a PF afirma que Nara atuava na viabilização técnica das emendas, mantendo interlocução constante com Mariângela Fialek, a 'Tuca'. Segundo os investigadores, ela encaminhava planilhas e solicitava ajustes nos destinos e áreas temáticas das emendas.
A PF destaca que, ao longo das comunicações, Nara fazia referências recorrentes a indicações qualificadas como sendo "do Valdemar" ou "do VCN", abreviação que, no contexto dos diálogos, se referia a Valdemar Costa Neto. Essas menções estavam associadas a "valores expressivos" e a demandas específicas nas áreas de saúde, turismo e esporte, principalmente para municípios de São Paulo.




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