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Inquérito apura acordo de tráfico da Rocinha com organização

RIO Um inquérito instaurado pelo delegado Antonio Ricardo Lima Nunes, quando ainda era titular da 11ª DP, apura a presença de narcomilícia na Rocinha. A investigação, segundo Carlos Abreu, que assumiu a delegacia da comunidade no fim de março, corre em sigilo e não tem prazo para ser concluída. A maior dificuldade, dizem os policiais, é conseguir que vítimas apresentem denúncias concretas.

— Temos informações de que são feitas cobranças ilegais na Rocinha. Mas não conseguimos comprovar, porque as pessoas, com medo, não querem se envolver — diz Antonio Ricardo.

O atual titular da 11ª DP lembra que a extorsão é crime e argumenta que, além do Disque Denúncia (2533-1177), que aceita informações anônimas, é possível recorrer ao WhatsApp da delegacia (98322-0207). Pela rede social, acrescenta Abreu, é possível transmitir imagens e vídeos para auxiliar a investigação.

— A polícia faz parte da sociedade, e as pessoas precisam trazer os fatos à delegacia. Não há necessidade de comparecer pessoalmente. Há canais anônimos que podem ser usados — diz.

Dono de uma van que circula na Rocinha, X. é vítima da narcomilícia, mas diz que não vai se expor ao risco. Ele lembra que a delegacia fica em frente à comunidade e que, como ele, muita gente tem medo de denunciar as extorsões.

— Eles estão aterrorizando. Trabalhamos e temos que dar grande parte do que ganhamos. A pressão é muito grande — desabafa.

TAXA PARA ÔNIBUS ESCOLAR

O transporte escolar também paga taxa para poder operar. Dono de um dos 50 ônibus que circulam na Rocinha para levar e buscar as crianças da comunidade até colégios públicos do Leblon, da Gávea e de São Conrado, Y. é cauteloso e prefere falar pouco. Não reclama sequer do pagamento.

— Por mês, gasto R$ 400 para comprar cestas básicas e ajudar no salário dos três funcionários que trabalham no estacionamento onde param alguns ônibus. Mas não acho errado. Tenho que pagar mesmo — comenta Y., que, como outros motoristas, para seu veículo num terreno ao lado ao Ciep Ayrton Senna.

Embora não seja seu negócio, Z. diz que não é bem assim, e que os donos de ônibus pagam taxas por veículo, a cada semana. O valor é o mesmo cobrado das vans, ou seja, R$ 285. Segundo ele, porém, não há diárias. A extorsão aos donos de ônibus pesou no bolso dos pais, que tiveram a tarifa reajustada. Cada criança transportada custava, no ano passado, R$ 190. Agora, o serviço de transporte, que conta com uma auxiliar para tomar conta dos estudantes no trajeto até as escolas, sai a R$ 205.

Nem todos, no entanto, podem arcar com a despesa. Pai de um casal de gêmeos, um morador da Rocinha que trabalha num bar da Zona Sul diz preferir que os filhos andem de transporte público:

— Não tenho como gastar esse dinheiro com transporte das crianças. Elas vão de ônibus comum, que é de graça. A minha mulher leva enquanto forem pequenas. Depois, vão sozinhas.

Entre os meios de transportes, só os taxistas que entram na Rocinha ficam inumes às taxas. Pelo menos, é o que dizem.

Atual administrador regional da Rocinha (XXVII RA), Marco Antonio Costa de Oliveira — o Marcão da Academia, dono da badalada R1 Fitness, que funciona na Estrada da Gávea — diz que não tem como comentar sobre a denúncia de cobrança de taxas ilegais, por não ser algo que diga respeito a seu cargo.

Marcão tomou posse à frente da Região Administrativa em abril, durante o troca-troca da administração Marcelo Crivella por conta do prazo de desincompatibilização para as eleições de outubro. O pouco tempo no posto é outro argumento do novo administrador ao falar sobre as construções irregulares que estão sendo erguidas na comunidade. As obras ilegais estão a pleno vapor, inclusive na área destinada ao Parque Ecológico da Rocinha, na localidade conhecida como Portão Vermelho. Lá, o estado indenizou famílias e desocupou casas, mas novas edificações já surgiram na região:

— Sei que temos construções irregulares. Vou acionar o órgão competente para que faça operações. Cheguei à RA há pouco tempo. Estou me inteirando de tudo, fazendo um trabalho árduo. A Rocinha tem muitos problemas, alguns deles mais urgentes. As chuvas estão chegando e temos muito lixo na encosta para ser recolhido, além de casas em área de risco — aponta ele. — Somos poucos na RA, eu e mais quatro pessoas.

Esvaziado, o órgão, não conta mais sequer com o apoio do Posto de Orientação Urbanística e Social (Pouso), que funcionava com um engenheiro ou arquiteto, e foi desativado pela atual administração municipal. Agora, é preciso acionar um funcionário da Secretaria de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação, que trabalha na 6ª RA (Leblon).

Aliás, é da 6ª RA a competência por zelar pela ordem no trecho da Rocinha junto à Autoestrada Lagoa-Barra. O administrador Douglas da Silva Pereira garante que há ações de controle urbano previstas para combater a desordem de camelôs no local, mas diz que elas acabam sendo canceladas devido à violência:

— A questão é que, a todo o momento, há tiroteios. Já passei por situação de risco quando fui entregar uma cesta básica. Nosso pessoal que foi limpar o valão também passou.

A pintura da fachada de casas da Rocinha, que Crivella disse que “está muito feinha”, é hoje a principal intervenção visível da prefeitura na comunidade.

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