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Silvia Simões

A saga dos Manauara em mais uma greve dos rodoviários

Silvia Simões
Por Silvia Simões
22/07/2026 14h25 — em Silvia Simões

Dizem que o amazonense já enfrentou cheia histórica, vazante recorde, calor de fritar ovo na calçada e até chuva que parece cair de balde. Mas nada prepara um cidadão para uma greve de ônibus em plena segunda-feira.

Ontem Manaus amanheceu no modo sobrevivência.

Quem tinha moto virou motorista de aplicativo improvisado. Quem tinha carro virou o melhor amigo da vizinhança. Quem não tinha nenhum dos dois descobriu que a fé também serve como meio de transporte.

As motos circulavam parecendo árvore de Natal: três pessoas, mochila, sacola do supermercado e, em alguns casos, ainda tinha espaço para o capacete... pendurado no braço.

Os aplicativos entenderam que era dia de ficar rico. Teve corrida que custava mais do que a prestação da moto. Quando o passageiro via o valor, fechava o aplicativo, respirava fundo e pensava: "Acho que vou andando mesmo."

Enquanto isso, alguns motoristas de ônibus resolveram transformar o protesto em espetáculo. Entre uma reivindicação e outra, teve dança, música, vídeo para as redes sociais e coreografia digna de festival. Afinal, se o salário estava atrasado, pelo menos o algoritmo não podia reclamar da falta de conteúdo.

E quem sofreu mesmo foi Dona Maria.

Saiu cedo para trabalhar e jurava que "já, já aparece um ônibus". O "já, já" virou manhã, virou tarde, virou noite. Dizem que ela conheceu tanta gente na parada que já estava organizando o amigo oculto de fim de ano. Há quem garanta que, se você passar por lá hoje, Dona Maria ainda pergunta:

— Meu filho... já passou algum?

Já Seu João continua sendo o maior otimista de Manaus. De pés juntos, ele garante:

— Agora voltou tudo ao normal. Tá a todo vapor!

O detalhe é que ele faz essa mesma previsão desde ontem às seis da manhã.

Mas nenhum personagem supera o famoso Enrolão.

Assim que percebeu o caos na cidade, pegou o telefone e ligou para o chefe:

— Doutor, estou preso na parada faz mais de três horas. Não passa um ônibus!

A interpretação foi tão convincente que quase ganhou um prêmio.

O problema é que, enquanto descrevia o sofrimento, o volume da televisão entregava tudo. Dizem que o chefe ouviu explosão, trilha sonora e até o protagonista do filme gritando antes de responder:

— Tá bom... depois me conta como termina esse filme.

Manaus tem dessas.

No mesmo dia em que faltou ônibus, sobrou criatividade. Teve carona, bicicleta, caminhada, corrida de aplicativo, moto táxi, bicicleta elétrica, patinete improvisado e até quem jurou que, se aparecesse uma canoa na Avenida Constantino Nery, entrava sem perguntar o destino.

Porque o manauara pode reclamar do calor, do trânsito, da chuva e dos buracos. Reclama, resmunga, faz meme e promete que vai embora da cidade.

Mas quando a confusão acontece, aparece uma qualidade que não falta por aqui: a capacidade de rir da própria desgraça.

No fim das contas, Manaus não ficou sem transporte.

Ficou, por algumas horas, movida pela criatividade.

E criatividade, meu amigo...

Silvia Simões

Silvia Simões

Cirurgiã Dentista universidade Federal do Amazonas- Especialista em Odontologia – Saúde Pública – Universidade Federal do Amazonas- Especialista MBA em Administração Hospitalar e Gestão de Serviços de Saúde – Universidade Nilton Lins- Especialista MBA em Gestão de Cooperativas – Faculdades Integradas de Taquara-Mestra em Clínicas Odontológicas – Centro de Ensino e Pesquisa de Pós-Graduação do Norte – Professora Universitária- Coordenadora do Curso de Odontologia Hospitalar- Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA)-Ex- Diretora Administrativa do sicoob [email protected]

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