Início Silvio da Costa Bringel Batista Síndrome de estocolmo política: A paixão cega pelo político predileto
Silvio da Costa Bringel Batista

Síndrome de estocolmo política: A paixão cega pelo político predileto

Silvio da Costa Bringel Batista
Por Silvio da Costa Bringel Batista
29/11/2025 às 15h50 — em Silvio da Costa Bringel Batista
Envie
Envie

Síndrome de Estocolmo Política: A Paixão Cega pelo Político Predileto 

Analisando o vínculo destrutivo onde a lealdade ao indivíduo supera a responsabilidade cívica.

A “Síndrome de Estocolmo” é um fenômeno psicológico bem documentado, geralmente associado a situações de cativeiro ou sequestro, onde a vítima desenvolve um vínculo afetivo ou de lealdade com seu captor. Este artigo propõe uma analogia a essa dinâmica para analisar o comportamento de lealdade inabalável e, por vezes, irracional, que alguns eleitores manifestam em relação a figuras políticas específicas - o que podemos chamar de "Síndrome de Estocolmo Política".

O foco deste artigo é explorar como o eleitorado, mesmo diante de evidências de corrupção, má gestão ou falhas éticas e morais graves, pode desenvolver uma "paixão" que leva à defesa apaixonada e à cegueira seletiva do político predileto.

O termo “Síndrome de Estocolmo” surgiu após um assalto a banco em Estocolmo, Suécia, em 1973. A síndrome se baseia em mecanismos de defesa essenciais, como a regressão (ver o captor como figura parental), a identificação (internalizar a visão do agressor para reduzir o medo) e a gratidão (valorizar a "não-agressão" como um presente).

Na arena política, o eleitor submetido a essa patologia, se encontra emocionalmente "refém" de uma narrativa que lhe oferece segurança e identidade. O político predileto se apresenta como o único capaz de "salvar" o eleitor ou o país de uma ameaça percebida e essa dinâmica estimula a lealdade cega.

Neste contexto, o eleitor com “Síndrome de Estocolmo Política” valoriza mais os gestos simbólicos e o discurso de guerra cultural do líder do que a eficácia das políticas públicas (educação, saúde, economia) e o "captor" político se concentra em agradar emocionalmente o seguidor, não em resolver problemas complexos.

Os Ministros, Secretários, Assessores ou políticas fracassadas da “facção política” são defendidos ferozmente, enquanto a sociedade perde a oportunidade de promover uma meritocracia baseada na capacidade técnica, assim, a lealdade prevalece sobre a competência.

Nesta esfera, identifica-se a denominada “identidade e pertencimento”, onde atacar o político predileto é visto como atacar a própria identidade do eleitor; onde o filtro seletivo do seguidor somente processa informações que confirmam a grandeza do líder (viés de confirmação), mas nega as críticas contra ele e o discurso é polarizador utilizando uma linguagem de "nós contra eles", reforçando a ideia de que a lealdade é um ato de sobrevivência.

Sobre a “Lealdade à Utopia” no espectro da esquerda, a “Síndrome de Estocolmo Política” manifesta-se através da defesa inabalável de líderes, regimes ou ideologias que prometem uma utopia social, mesmo diante de evidências de autoritarismo. A crítica é vista como uma traição ao ideal de justiça social, e a falha do líder é justificada como um "mal necessário" na luta contra o inimigo (o capitalismo, o imperialismo).

Já no espectro da direita, prevalece a “Lealdade à Ordem e ao Líder Forte” como a ideia central, pois o vínculo afetivo manifesta-se na defesa apaixonada de líderes que prometem ordem, tradição e identidade nacional. Aqui, a lealdade cega leva à negação de fatos (aceitação de teorias conspiratórias) e à justificação de abusos de poder. Ações que violam a ética ou a lei são racionalizadas como "medidas necessárias" para proteger a nação da ameaça interna (os adversários políticos).

Em ambos os espectros, a lealdade incondicional é o combustível perfeito para líderes com tendências autoritárias, pois na validação dos abusos no poder, o líder ataca as regras do jogo e, os seguidores, por lealdade, racionalizam essas ações como "medidas necessárias" contra um suposto inimigo e nisto tudo, a lealdade ao líder justifica a violação das regras democráticas.

Na lealdade incondicional, intransigência e polarização extrema, o debate democrático, que exige diálogo e compromisso (o respeito ao contraditório), é substituído por um confronto estéril e rígido. A polarização intransigente transforma adversários políticos em inimigos existenciais que precisam ser destruídos e não convencidos pelo argumento lógico e legal.

Devemos lembrar que o radicalismo, em sua essência, exige a abdicação do senso crítico em favor da pertença e o resultado final de um contexto radical, torna a democracia vulnerável as forças destrutivas internas, as quais, ironicamente, invocam o espírito democrático (a vontade do "povo"), mas corroem seus pilares essenciais.

A “Síndrome de Estocolmo Política” ilustra o perigoso cenário onde o julgamento crítico é substituído pela paixão cega, fenômeno amplificado pelo radicalismo ideológico, seja de direita seja de esquerda.

A polarização alimentada pela lealdade cega ao líder, gera medo e desconfiança entre os cidadãos, transformando o debate político em uma questão de vida ou morte (a retórica do "nós contra eles"); as pessoas passam a ter medo umas das outras e essa desconfiança mútua, historicamente, tem sido a base das inúmeras ditaduras que ainda contaminam o mundo.

A diversidade de ideias, que deveria ser a riqueza da democracia, passa a ser vista como uma ameaça e a negação da legitimidade do "outro lado" corrói a capacidade da sociedade de se unir em torno de valores e objetivos comuns, fragilizando o próprio pacto civilizatório que sustenta a pluralidade.

Assim, a saúde da democracia depende da capacidade do eleitorado de responsabilizar seus líderes e não de se apaixonar por eles. Quando a lealdade ao indivíduo supera a lealdade às instituições públicas e aos princípios éticos e morais, a relação entre governante e governado se torna um vínculo emocional destrutivo, permitindo que o "político predileto" exerça seu poder sem enfrentar as consequências de seus atos, ancorado na paixão cega de seus seguidores.

Quando a paixão cega prevalece, a falha do senso crítico impõe riscos profundos à democracia, resultando na “Erosão da Responsabilização”. O político predileto passa a operar com impunidade, pois sua base o protege de qualquer escândalo de corrupção e essa dinâmica destrói a confiança institucional.

A negação das regras e das instituições fragiliza o Estado de Direito e fornece o combustível para o avanço do autoritarismo e da polarização extrema, onde o debate democrático é substituído por um confronto rígido e hostil, validando os mais variados abusos de poder.

Neste amaneirado comportamental, devemos encontrar o “Elo Perdido” - a simetria dos extremos e o equilíbrio crítico - examinando criticamente as manifestações em ambas as vertentes, pois embora as ideologias sejam opostas, o mecanismo psicológico de lealdade cega e de rejeição à realidade é idêntico.

O antídoto para a “Síndrome de Estocolmo Política” reside em movimentos que buscam restaurar o “Equilíbrio Crítico” através do diálogo, educação e combate à desinformação.

A luta pelo “Equilíbrio Crítico” no contexto cívico, exige o fornecimento de dados objetivos para furar a "bolha" de informações enviesadas e ensinar aos cidadãos a questionar a fonte e a aplicar o mesmo padrão de julgamento à informação, independentemente de quem a está compartilhando.

Muitas iniciativas cívicas buscam criar espaços seguros para que pessoas de diferentes espectros políticos se encontrem e dialoguem, sem o objetivo de "vencer" o debate, mas de humanizar o adversário.

O foco inicial deve ser o de combater a polarização e a lógica do "Nós Contra Eles", reconhecendo a legitimidade das diferenças, praticando a tolerância mútua, vendo o outro não como inimigo, mas como um concidadão com prioridades distintas.

É necessário fomentar os movimentos que promovem a integridade pública e a transparência, no sentido de reforçar o princípio sobre o partido, pressionando por leis anticorrupção que monitorem a prestação de contas dos governantes e utilização de ferramentas tecnológicas para facilitar a “Fiscalização Cidadã”, pois a lealdade primordial do cidadão é à ética e à responsabilidade cívica e não a qualquer bandeira ideológica.

Devemos avançar em um ressurgimento do interesse pela educação que enfatiza o raciocínio lógico e a filosofia política, ensinando o cidadão a reconhecer falácias lógicas e a entender os mecanismos de manipulação retórica. Isso equipará o indivíduo com as ferramentas necessárias para resistir à racionalização e ao apelo emocional do populismo, exigindo propostas baseadas em dados e princípios, e não apenas em promessas emocionais.

O "Elo Perdido" exige que o eleitor aplique o mesmo padrão de julgamento à sua própria “facção” e à adversária, priorizando o princípio sobre o partido, mantendo a lealdade aos valores éticos, morais e democráticos, acima da lealdade a qualquer líder. Em suma, a luta pelo “Equilíbrio Crítico” é na verdade a luta pela consciência cidadã, sendo o principal mecanismo de defesa da democracia contra a erosão causada pela paixão cega.

(*) O autor é Cristão Evangélico, Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos, Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro, Formado em Direito pela UFAM, Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil, Procurador da Câmara Municipal de Manaus, Advogado, Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Membro Titular da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM, Corretor de Imóveis, CAC, Antigomobilista, Apresentador do Podcast “Lei é Lei”, ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho, ex-ProcuradorGeral da CMM, ex-Diretor-Geral da CMM, ex-Chefe da Consultoria TécnicoLegislativa e ex-Subsecretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas. 

Silvio da Costa Bringel Batista

Silvio da Costa Bringel Batista

(*) O autor é Cristão Evangélico, Doutorando em Teologia pelo Instituto Logos, Consagrado ao Ofício Diaconal pela Igreja Batista em Dom Pedro, Formado em Direito pela UFAM, Pós-Graduado em Direito Civil e Processo Civil, Procurador da Câmara Municipal de Manaus, Advogado, Presidente da Comissão da Advocacia Pública e Membro Titular da Comissão de Apoio Institucional à Gestão Pública da OAB/AM, Corretor de Imóveis, CAC, Antigomobilista, Apresentador do Podcast “Lei é Lei”, ex-Juiz Classista da Justiça do Trabalho, ex-Procurador-Geral da CMM, ex-Diretor-Geral da CMM, ex-Chefe da Consultoria Técnico-Legislativa e ex-Subsecretário Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Amazonas.

Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais publicados nesta coluna não refletem necessariamente o pensamento do Portal do Holanda, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?