Por trás do olhar manso e do jeito arisco, o cervo é o mamífero mais perigoso da América do Norte para os seres humanos. Nos Estados Unidos, esses animais provocam cerca de 1,2 milhão de colisões com veículos por ano, o que resulta em mais de 200 mortes, aproximadamente 29 mil feridos e 1,66 bilhão de dólares em prejuízos entre danos aos carros, contas médicas e limpeza das pistas. Parte do problema tem uma explicação ecológica: com o declínio dos grandes carnívoros que os predam, como lobos e onças-pardas, as populações de cervos passaram a crescer praticamente sem freio.
Um estudo publicado na revista Conservation Letters, conduzido por uma equipe que inclui a pesquisadora Laura Prugh, da Universidade de Washington, tentou pela primeira vez quantificar o impacto econômico e social do retorno desses predadores. Os cálculos indicam que, em até 30 anos após a recolonização do leste dos Estados Unidos por onças-pardas, os felinos reduziriam a densidade de cervos e derrubariam as colisões com veículos em 22%, o que evitaria anualmente cinco mortes, 680 feridos e 50 milhões de dólares em custos. No acumulado de três décadas, a projeção chega a 708,6 mil acidentes evitados e 2,13 bilhões de dólares poupados.
A conta individual também impressiona: uma única onça-parda abateria cerca de 259 cervos ao longo de seus seis anos médios de vida, prevenindo oito colisões e economizando algo perto de 40 mil dólares. Os autores adotaram premissas deliberadamente conservadoras — assumiram que três de cada quatro cervos mortos pelos felinos morreriam de outras causas de qualquer forma, o que reduz em 75% o efeito atribuído à predação, e restringiram o habitat possível apenas a grandes áreas florestadas, embora os animais também consigam viver em zonas rurais, como fazem no oeste do país.
O modelo pôde ser confrontado com um caso real: em Dakota do Sul, onde uma população viável de onças se estabeleceu nas Black Hills, os índices de colisão entre cervos e veículos caíram de forma expressiva depois que os felinos repovoaram a região nos anos 1990. As onças-pardas, também chamadas de pumas ou leões-da-montanha, ocupavam quase todo o território dos Estados Unidos e do Canadá até serem eliminadas do Meio-Oeste e dos estados do leste no início do século 20, em campanhas de caça patrocinadas por governos estaduais para proteger rebanhos e pessoas.
Os próprios autores reconhecem que a reintrodução tem custos, já que ataques a pessoas, animais domésticos e rebanhos tendem a se tornar mais frequentes; ainda assim, as estimativas apontam que os felinos salvariam cinco vezes mais vidas do que ceifariam. A expectativa dos pesquisadores é justamente mostrar que conviver com grandes carnívoros traz benefícios concretos, e não apenas riscos. Pesquisas mais recentes sugerem um mecanismo adicional: em áreas de maior atividade de onças, as colisões chegaram a ser 79% menores, não apenas porque os felinos matam cervos, mas porque a presença deles afasta os herbívoros das margens das estradas.



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