(FOLHAPRESS) - Os irmãos Ron e Russell Mael, mais conhecidos por Sparks, vêm criando, desde o início dos anos 1970, um universo sônico e estético próprio e sem concessões. Não foram muitos os que embarcaram no bonde dos Mael, mas quem embarcou tem aproveitado bastante.
A dupla lançou, em maio, "Mad!", seu 26º LP de estúdio -sem contar incontáveis colaborações, trilhas sonoras, etc.-, e o disco entrou nas paradas britânicas na segunda colocação, a melhor posição da carreira da banda. Um feito espantoso para um grupo que, há uma década, estava completamente esquecido.
Felizmente, o mundo acabou dando o braço a torcer e percebendo a genialidade por trás da estranheza dos Sparks. Nos últimos anos, os irmãos -Ron, de 79 anos, e Russell, 76- tocaram para as maiores plateias de sua vida em grandes festivais -em Glastonbury, com a inesquecível participação de Cate Blanchett em "The Girl is Crying in Her Latte"- e teatros lendários como o Royal Albert Hall, em Londres.
Os dois têm feito sucesso até na terra natal, Los Angeles, nos Estados Unidos, lugar que sempre ignorou o pop torto deles. Em 2023, mais de 17 mil fãs lotaram o Hollywood Bowl, mesmo teatro onde, seis décadas antes, Ron e Russell viram os Beatles. E em 2021, o cineasta Edgar Wright lançou um ótimo documentário sobre os dois, "Os Irmãos Sparks", disponível nas plataformas digitais para aluguel.
"Mad!" é um dos álbuns mais acessíveis e comerciais da carreira do Sparks, uma coleção de pérolas synthpop com as letras engraçadas e sagazes de sempre. O single "Do Things My Way" tem versos que parecem um mantra da dupla: "Tenho o combustível/ quebro as regras/ vou fazer as coisas do meu jeito".
A segunda faixa do disco é muito característica do som inclassificável dos Sparks -sobre uma base sonora que lembra o gênero "schlager", música pop e brega alemã que inspirou o Abba, Ron e Russel cantam uma letra engraçadíssima sobre uma mulher que os ignora e lhes dá as costas, mostrando apenas a mochila da marca JanSport: "Ela usa uma mochila da JanSport/ por que será que ela sempre me dá as costas/ por que ela me trata dessa maneira?"
Na história do pop, alguns artistas, como David Bowie, se caracterizaram por um estilo camaleônico de compor, incorporando influências de outras pessoas. Os Sparks também são assim. "Hit me Baby" lembra o tecnopop de Human League e Soft Cell e "My Devotion" remete a cantigas infantis.
Já a melhor faixa do disco, "Running Up a Tab in the Hotel for the Fab" é mais pesada, ao estilo do som industrial de um Cabaret Voltaire. Mas a letra é puro Sparks -um relato autodepreciativo sobre o dia em que eles se hospedaram num hotel de luxo para impressionar uma mulher, mas não tinham dinheiro para pagar a conta e acabaram presos. "Você vai me visitar em Rikers? [prisão em Nova York]/ Eu vou apelar/ seu amor vai me fazer suportar essa provação/ vai ter valido a pena". Só Russel e Ron Mael poderiam cantar algo assim.
Gravado, a exemplo de seus 15 discos anteriores, na sala da casa de Russell em Los Angeles, "Mad!" é mais uma coleção de canções pop perfeitas que trazem influências de sete décadas ouvindo rádio e colecionando discos.
De "girl groups" como Ronettes a Beatles, das batidas sintéticas de Giorgio Moroder ao glam rock de Bowie e Roxy Music, Ron e Russell Mael criaram uma música que atira para todos os lados, mas consegue ser única e pessoal. Um Frankenstein sonoro que surpreende o ouvinte a cada minuto com o poder do inesperado. O mundo é dos Sparks, a gente só está aqui de carona.
MAD!
Avaliação Ótimo
Autoria Sparks
Gravadora Transgressive Records
Onde ouvir Nas plataformas digitais

