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Nick Cave e Warren Ellis exibem som 'electro-gospel' em documentário musical

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A plataforma Mubi estreia nesta semana "This Much I Know to Be True", um filme-concerto que explora a parceria entre os músicos australianos Nick Cave e Warren Ellis. O filme é dirigido por outro australiano, Andrew Dominik, colaborador de longa data de Cave e Ellis.

É o segundo filme que Dominik dirige sobre Nick Cave. O primeiro foi "One More Time Time With Feeling", de 2016, que documenta a gravação do álbum "Skeleton Tree", feito logo depois da maior tragédia pessoal da vida de Cave --a morte do filho adolescente, Arthur.

"De certa forma, vejo os dois filmes como um só", diz Dominik em entrevista a este repórter, de sua casa em Los Angeles. "Um é continuação do outro. O tema do primeiro filme era Nick tentando viver e tirar algo de positivo da tragédia, mas falhando miseravelmente. Nesse novo filme, temos Nick voltando à vida, enriquecido por ela, tentando se encontrar e lidar com a morte de Arthur de uma forma responsável."

Dominik tem 54 anos e é uma década mais novo que Nick Cave. Mesmo com a diferença de idade, já eram amigos em meados dos anos 1980, na Austrália, quando namoraram a mesma mulher. "Sabe aquela música 'Deanna'"? pergunta Dominik, se referindo à faixa gravada por Cave com a banda The Bad Seeds em 1988, no álbum "Tender Prey". "Nós dois namoramos a Deanna. Ela e Nick já haviam se separado, mas Nick continuava ligando para ela. Um dia, eu atendi o telefone e passamos um tempão conversando -- sobre ela!"

Em meados dos anos 2000, Dominik estava preparando o faroeste "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", estrelado por Brad Pitt, quando ligou para Cave, convidando o amigo a cantar uma música no filme.

"Nick disse que não só topava cantar, mas queria escrever a trilha sonora também", diz Dominik. "Fiquei tão surpreso que aceitei na hora. Foi a melhor decisão que tomei na vida." A trilha sonora, composta por Cave e Warren Ellis, marcou a primeira colaboração do trio.

"This Much I Know to Be True" mistura entrevistas com Cave e Ellis a canções que são interpretadas pela dupla, às vezes acompanhados por outros músicos e cantores. As sequências ao vivo são lindamente fotografadas e foram filmadas numa fábrica antiga abandonada em Bristol, no Reino Unido.

"Foi muito rápido", diz Dominik. "Filmamos tudo --as entrevistas e as músicas-- em cinco dias." As músicas do filme fazem parte dos dois discos mais recentes de Cave, "Ghosteen", de 2019, gravado com a banda The Bad Seeds, da qual Ellis faz parte há quase três décadas, e "Carnage", do ano passado, disco assinado por Cave e Ellis.

Quando foi convidado por Cave para filmar "This Much I Know to Be True", Dominik estava finalizando "Blonde", filme biográfico sobre Marilyn Monroe, adaptado do livro de Joyce Carol Oates e estrelado por Ana de Armas.

A primeira reação do diretor foi recusar o convite, mas a possibilidade de voltar a trabalhar com Cave, artista que admira há décadas, foi mais forte. "Nick é fabuloso. Eu estava no estúdio durante a gravação de 'Ghosteen' e sou obcecado por aquele disco. Não pude dizer não."

O novo filme captura Cave e Ellis numa fase muito particular, em que a parceria dos dois é tão livre e espontânea que os discos mais recentes foram praticamente improvisados no estúdio.

"Eles fizeram 'Carnage' em dois dias", conta Dominik. "Mas é preciso dizer que, antes disso, Nick passou três meses escrevendo letras, e Warren ficou um tempão criando bases e arranjos. O que eles fizeram foi pegar trechos do que cada um criou e misturar esses pedaços, formando algo novo e que tinha um incrível ar de improviso e novidade. Era fascinante ver a cara dos dois quando criavam algo que os emocionava".

Dominik conhece profundamente a música de Nick Cave e diz gostar muito da atual fase do compositor, que vem trilhando, nos últimos quatro discos --desde "Push the Sky Away", de 2013, seguido de "Skeleton Tree", "Ghosteen" e "Carnage"-- um caminho mais experimental e atmosférico, que o cineasta chama de "electro-gospel".

"Primeiro, ele e Warren tiraram as guitarras, em 'Push the Sky Away'. Depois, em 'Ghosteen', abriram mão da bateria. Isso deixou a música livre para ser qualquer coisa, sem amarras. O som que eles estão fazendo hoje me parece muito mais próximo de trilhas sonoras. Eu simplesmente amo o caminho que eles tomaram."

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