Com o fim do ano de 2025, é oportuno um balanço sobre o Amazonas. Não se trata de listar acertos ou erros pontuais, mas de reconhecer um padrão que atravessou decisões governamentais ao longo do ano. O Amazonas é um Estado continental, marcado por grandes distâncias e realidades sociais diversas que não se encaixam em soluções pensadas para outras regiões do país. Tratar essa singularidade como detalhe não produz igualdade, produz desigualdade disfarçada.
A repavimentação da BR-319 se consolidou como o maior símbolo desse impasse. O tema atravessa governos, ações judiciais, estudos refeitos e exigências sucessivas. O discurso oficial fala em proteção ambiental; a realidade cotidiana é isolamento, custo de vida elevado e desigualdade mantida. A estrada não avança, mas o debate também não se resolve. O tempo passa, ninguém assume a decisão final, e o Amazonas segue pagando o preço da indecisão.
Esse mesmo padrão apareceu em outras áreas. Na educação, o Supremo Tribunal Federal derrubou partes da política de cotas da Universidade do Estado do Amazonas por considerar ilegais critérios baseados apenas na origem geográfica dos estudantes. A decisão reafirmou um entendimento já conhecido. A política ficou de pé por anos, até cair. Mudou-se a regra, mas a desigualdade regional que a motivou continua sem resposta clara.
No campo ambiental, o impasse se aprofundou. Projetos de créditos de carbono avançaram sem que comunidades tradicionais fossem ouvidas de forma adequada. A Justiça suspendeu iniciativas, anulou atos e travou editais. Em termos legais, havia fundamentos. Na prática, o território ficou no vazio: sem projeto, sem renda, sem política definida. Quando o processo judicial entra, ele não organiza o caminho — apenas congela a situação.
Nem mesmo as ações de repressão escaparam dessa lógica. Operações contra o garimpo ilegal, realizadas sem planejamento suficiente, acabaram provocando novos danos ambientais, como poluição dos rios e riscos à navegação. Depois vieram disputas judiciais, discussões sobre responsabilidades e mais paralisia. Combate-se um problema criando outros, e tudo termina nos autos.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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