SÃO PAULO - Os cirurgiões plásticos da Jornada Paulista de Cirurgia Plástica lotaram o auditoria do hotel que recebe o evento ansiosos pela principal palestra da noite, mas o convidado não vinha falar sobre os avanços da área - tema da palestra anterior à sua - mas sobre o combate à corrupção. "Como seria o mundo se você não existisse?", começou Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava-Jato, para a plateia de médicos e médicas. Durante uma hora, o procurador contou algumas histórias dos bastidores Lava-Jato, trocadilhos que renderam risadas entre os cirurgiões plásticos da Jornada Paulista de Cirurgia Plástica e conclamou os médicos a participarem na mudança pelo combate à corrupção no Brasil.
- O problema da corrupção não é resolvido trocando de espelho. O país está desfigurado. Ele precisa de uma cirurgia reconstrutiva. E eu acho que vim no lugar certo - disse Deltan.
Entre os "causos" médicos, o procurador contou que, após a delação de Paulo Roberto Costa, passou a sofrer de problemas gástricos e resolveu enviar a uma mensagem sobre os sintomas para seu médico. Como o especialista era homônimo do delator, o pedido de diagnóstico foi para o ex-diretor da Petrobras. "Não sou médico, sou engenheiro. Mas desejo uma pronta melhora ao senhor", teria sido respondido a Deltan.
Os acontecimentos recentes não ficaram de fora da conferência, no entanto. Durante a palestra, Deltan combateu as principais críticas sofridas pela operação, como o suposto excesso de prisões, seu uso para conseguir colaborações premiadas delas, e aproveitou a delação da JBS para afastar as acusações de partidarismo.
- Nós éramos os golpistas, não é? Agora nós somos os golpistas dos golpistas? Eu fico confuso. Os casos recentes deixaram claro que as investigações não são contra partido A ou contra partido B - disse.
Durante mais de uma hora, o procurador contou aos cirurgiões da Jornada Paulista de Cirurgia Plástica as vitórias e e os desafios da operação três anos após seu início e depois respondeu a perguntas.
Antes do início, o pedido do moderador era de que nenhum nome de político fosse citado, mas logo nas primeiras perguntas, Deltan teve que responder sobre alguma previsão para a prisão do ex-presidente Lula.
Conclamados pelo procurador, que disse que a Lava-Jato ainda não mudou a realidade do Brasil por não ter gerado mudanças sistêmicas, a ajudarem na mudança do país nas eleições do ano que vem, um integrante da plateia questionou Deltan sobre os problemas na educação do Brasil após ter escutado defesas do ex-presidente em seu consultório.
- A gente aqui é uma plateia muito elitizada então a gente consegue discutir política - disse o cirurgião, que completou: - Porque o povo não sabe eleger. (Você diz que) Nós podemos eleger em 2018, mas não somos só nós, né?
O procurador respondeu afirmando que vê potencial nas mudanças políticas recentes e lembrou várias entidades que atuaram no combate à corrupção recentemente. Durante a palestra, Deltan defendeu as 10 Medidas Contra a Corrupção, medida encampada pelo Ministério Público Federal. O procurador disse que pensou em desistir quando a Câmara dos Deputados "desfigurou" o projeto. O procurador ainda foi questionado pelos vazamentos e por que não teria sido feita perícia nas gravações de Joesley Batista - caso que não está sob sua responsabilidade.
Aos presentes, Deltan alertou que é o avanço do combate à corrupção vem sofrendo uma reação da classe política é a Lava-Jato ainda não mudou a realidade no Brasil e a visão de que a força-tarefa é composta por heróis é prejudicial ao país.
- Se queremos mudanças, precisamos nos engajar. Essa história (da Lava-Jato) não tem heróis. A ideia de que somos heróis passa uma péssima mensagem. Porque as vítimas vão nos esperar agir, se digladiar com os titãs. A verdade é diferente. Nós podemos trazer mudança, mas não nós da força-tarefa, mas nós da sociedade brasileira - disse Deltan.
Ao final da palestra, Deltan foi aplaudido de pé pelos cirurgiões, que fizeram fila para terem o livro do procurador autografado e posar para uma foto com o procurador.
- A grande verdade é que há causas pelas quais vale a pena se lutar, e nosso país é uma delas. Que nós possamos dizer 'Nós, cirurgiões plásticos, somos brasileiros e não vamos desistir do nosso país' - terminou Deltan.
*Estagiário sob orientação de Flávio Freire

