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Alexandre Parola, o discreto ‘porta-voz sem palavra’ do governo Temer

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BRASÍLIA - Porta-voz do governo Michel Temer desde setembro do ano passado, o embaixador Alexandre Guido Lopes Parola inicia a conversa com O GLOBO com um semblante sério no rosto, que contrasta com a descontração usual em sua fala, e anuncia em tom solene: “Vou comunicar a nossa conversa ao presidente. Não quero que pareça que estou atrás de holofotes”, diz, em sua sala no segundo andar do Palácio do Planalto, emendando que, para ele, “quanto mais invisível, melhor”.

A discrição absoluta e a leitura de notas protocolares fez com que fosse apelidado por jornalistas de “o porta-voz sem palavra”. Curiosamente, o sobrenome do embaixador, de origem italiana, significa palavra. Por vezes criticado por não sanar as dúvidas da imprensa, o embaixador deixa claro que a voz do governo pertence a Temer:

— A voz é dele. Eu sou porta-voz. Quando a voz fala, a porta fecha — explica, afirmando que tradicionalmente as notícias quentes saem da boca do presidente da República. — É quase uma piada isso, mas a divisão dos trabalhos é: o porta-voz dá notícia não tão boa, e o presidente dá notícia boa. E está ótimo. Eu não sou notícia. A notícia é o meu chefe.

Indicado a Temer pelo assessor internacional da Presidência, Fred Arruda, também do Itamaraty, Parola foi escalado para abrir um canal oficial com a imprensa, depois de alguns ministros causarem ruídos no governo ao falarem demais em entrevistas. A ideia inicial do entorno do presidente era que o escolhido seguisse o modelo americano, em que o porta-voz faz um meio de campo fundamental com a imprensa e responde a perguntas previamente combinadas. Nas primeiras semanas, Alexandre Parola chegou a experimentar o modelo de responder a questionamentos, mas logo voltou a apenas ler notas oficiais de Temer, normalmente as comemorativas sobre resultados econômicos. Segundo ele, o modelo anterior “não era funcional”.

O embaixador rebate a ideia de que teria seguido o modelo da Casa Branca, afirmando não ser possível a comparação, a começar pela vasta equipe com a qual conta o porta-voz dos Estados Unidos.

— Não sei qual era a expectativa antes, mas acho que a comparação com o que acontece na Casa Branca é impossível — ressalta.

O estilo disciplinado do diplomata acompanha Parola até mesmo nas horas de lazer. Viciado em séries — é aficionado por “Game of Thrones” —, o porta-voz conta que, apesar de todos os episódios de uma temporada estarem disponíveis quando começou a acompanhar a série, se obrigava a ver apenas um por dia.

— Eu tenho uma disciplina horrorosa — diz, em tom de brincadeira.

Além de séries — está assistindo agora a “The Crown”, sobre a monarquia britânica, e “Black Mirror” —, o embaixador carioca também faz remo no Lago Paranoá, em Brasília, quatro vezes por semana, incluindo os sábados, por volta das 6h30m. Começou a remar ainda no Rio, pelo Vasco, apesar de ser flamenguista.

—O Vasco era mais perto da minha casa — conta Parola, que cresceu na Praia do Flamengo.

Aos 52 anos, o embaixador entrou no Itamaraty no fim da década de 1980 e passou na prova de primeira — “quando recebi a ligação, achei que fosse trote” —, já serviu em Londres, Genebra, Washington e Santiago. Foi porta-voz do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 2002, e teve atuação de maior destaque após a eleição, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, antes de assumir. Foi escalado pelo então presidente tucano para rebater os ataques do petista.

Das diferenças entre a atuação no governo FH e no de Temer, cita principalmente as mudanças tecnológicas. Tanto que, pouco depois de assumir a função, para a qual foi a quarta opção do Palácio, foi apresentado ao teleprompter (conhecido como TP), aparelho que o auxilia a gravar os briefings (conteúdos para divulgação). Antes, ao ler as notas escritas num pedaço de papel, era comum que aparecesse na televisão olhando para baixo. O embaixador conta que teve de se modernizar, mas sem deixar de carregar sempre, “por prudência”, o discurso escrito em uma folha de papel. Em uma de suas falas, após uma longa pausa, o operador de TP desligou o aparelho, pensando que Parola já tivesse terminado.

— Ficou tudo preto e não tinha o que fazer. Sorte que tinha o discurso em papel — lembra.

Alexandre Parola costuma acompanhar Temer nas viagens ao exterior e, já na primeira delas, para o Paraguai, passou por uma saia-justa. O porta-voz foi barrado em uma reunião bilateral e teve que esperar na van, junto com os demais assessores sem acesso à reunião. Segundo relatos, foi depois desse episódio com o diplomata, àquela altura ainda ministro de segunda classe, que se intensificaram as articulações para que fosse promovido a embaixador. O meio de campo foi feito por Fred Arruda.

Parola admite que, se fosse embaixador naquele momento, talvez não tivesse ficado fora do encontro restrito, mas diz que não causaria constrangimentos a Temer pedindo uma promoção fora de hora.

— Era o meu tempo, mas promoção você não pode contar como dada, e eu sou gratíssimo ao presidente por ter me promovido. Mas não seria correto, e eu não causaria, como não causei, esse constrangimento ao presidente — explica.

Num momento em que seu papel teria sido fundamental, quando Temer foi internado às pressas em Brasília, Parola foi pego de surpresa. Naquele dia, um integrante do governo disse, diante da possibilidade de que o porta-voz comentasse o estado de saúde do presidente, que o governo não deveria entrar para a História repetindo os passos de Antonio Britto — porta-voz que municiava a imprensa com informes sobre o estado de saúde de Tancredo Neves, que morreu antes de assumir o cargo de presidente.

Com elogios ao presidente na ponta da língua, o embaixador diz que nutre com ele relação de “lealdade, respeito e admiração”.

— Eu admiro o presidente. Acho que ele é a pessoa certa na hora certa na História do Brasil — enaltece.

Não é só Temer, seu atual chefe, que Parola admira. O embaixador também teceu elogios a Lula em seu livro “A Ordem Injusta”, de 2007. Ele diz, na publicação, admirar a política externa do primeiro governo do petista, que chamou de “pragmatismo democrático”.

“Em minha argumentação, caracterizo, por fim, as linhas gerais da política externa brasileira adotadas ao longo do primeiro mandato do presidente Lula com o que denomino de pragmatismo democrático, ou seja, uma política que articula a promoção de valores inspirados pela própria cidadania com a capacidade de atuar de modo não dogmático em defesa dos interesses nacionais e da construção de uma ordem justa”, escreveu Parola no livro.

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