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Análise: Choque de realidade às pretensões de Doria

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SÃO PAULO - Postada à exaustão em redes sociais como mote de seu exercício à frente da prefeitura, a hashtag #joaotrabalhador parece não ter aderido totalmente ao prefeito João Doria. Pesquisa mostra que o engajamento cada vez maior dele nas plataformas digitais acontece em ritmo inverso à sua popularidade fora dos ambientes virtuais, que caiu nove pontos percentuais, de 41% para 32%. Se pode assustar o prefeito, os números acendem um sinal amarelo para a figura do presidenciável, aspiração até então ameaçada apenas pela disputa interna no PSDB com Geraldo Alckmin, mas que passa a ter uma observação desconfiada do paulistano.

Pouco mais de nove meses no posto, o embate com o governador pode explicar, em parte, a queda de satisfação em relação ao prefeito. Embora Doria mantenha o discurso de comprometimento com o padrinho político, a tese de que o afilhado pode sucumbir a um projeto político maior também reforçaria essa queda na pesquisa. Atualmente, 55% dos eleitores dizem que não votariam em Doria de jeito de nenhum. Diante dos primeiros arroubos de popularidade, no início da gestão, Doria chegou a empurrar para o caminho virtual o próprio Alckmin, que passou a transformar a internet em ferramenta de propaganda, mas recuou diante das críticas direcionadas ao colega de partido.

No mano a mano, Alckmin aparece com pouco mais de folga: 45% acham que o governador deveria ser o candidato tucano ao Planalto, contra 31% que preferem Doria. Mas é bom ressaltar que 20% dos paulistanos não querem nem um nem outro.

Ao perceber que os índices começam a minguar, caberá ao prefeito de São Paulo tentar recuperar a popularidade perdida, inclusive entre os mais ricos e escolarizados, universo que também diminuiu a simpatia ao vizinho prefeito. Um problemão para quem é visto por uma ala do partido com discurso muito mais afinado justamente com esse fatia do eleitorado.

No PSDB não há quem arrisque um formato a ser adotado daqui em diante, salvo a manutenção do discurso de que o público e o privado são hoje indissociáveis. Uma atenção se faz necessária: 49% dos paulistanos consideram as doações recebidas pelo prefeito nada transparentes.

Doria não esconde ter sido convidado por outros partidos para embarcar sem turbulência na corrida sucessória de Michel Temer. Jantou com o DEM, foi cortejado pelo PMDB. A julgar pela mais recente avaliação de sua administração, há quem avalie que ele deva aumentar sua presença em encontros mais “pé no chão”, menos palacianos, como alertam correligionários que torcem o nariz para seu modelo elitizado.

Quem vive na periferia, aliás, já vinha dando sinais de que os bons ventos não sopravam mais para o lado do prefeito tal qual ele anuncia em vídeos de 16 segundos no Instagram. O setor de saúde, elogiado no início da gestão, se mantém com uma desaprovação na casa dos 25%. Nos bairros dentro e fora do centro expandido, a percepção de 75% dos paulistanos é a de que Doria fez até agora muito menos do que o esperado.

Coincidência ou não, os números negativos em relação ao prefeito de São Paulo surgem ao mesmo tempo em que ele recebe críticas de que sua agenda prioriza viagens a outros estados. Ou outros países. Esteve na China, Coreia, Itália e França. O próprio Ministério Público paulista abriu processo para investigar o vai e vem. No estilo “digital influencer”, ele informou pelas redes não apenas que trabalha quando está fora, mas que faz também horas extras.

Em oito meses de governo, Doria passou pouco mais de um mês e meio, digamos, fora da área de cobertura. Mesmo tendo ele batido no peito para lembrar que sempre viajou gastando dinheiro do próprio bolso, muitas vezes no próprio avião, quem mora em São Paulo não se sente alinhado ao discurso do prefeito: 77% veem as viagens do prefeito pelo país como um “lucro pessoal”, em detrimento da administração do município

Diante do aparente enfraquecimento da identidade do eleitor com o administrador, principalmente em razão das viagens, o prefeito terá, provavelmente, que abandonar o estilo itinerante e voltar a concentrar o foco na cidade que o consagrou nas urnas em 2016.

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