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Análise: Decisão de trocar ministro da Justiça surtiu efeito oposto ao esperado

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BRASÍLIA - A decisão do presidente Michel Temer de transferir o ministro Torquato Jardim para o comando do Ministério da Justiça em pleno andamento do inquérito aberto contra ele e contra o ex-assessor Rocha Loures surtiu efeito oposto ao esperado pelos estrategistas políticos do governo. Com um único ato, Temer desagradou o agora ex-ministro Osmar Serraglio, realimentou as suspeitas sobre suposta tentativa de controle político da Polícia Federal e deixou Loures sem mandato de deputado, ou seja, abriu caminho para a prisão do ex-assessor. Com aquela que seria uma tacada de mestre, Temer acabou jogando gasolina na fogueira da crise.

A troca de comando no Ministério da Justiça foi, por si só, um erro político crasso. Serraglio perdeu o cargo logo depois da divulgação de áudios em que o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) e o empresário Joesley Batista, dono da JBS, aparecem tramando a troca de comando no Ministério da Justiça e a escolha de delegados amigos para manipular investigações da Polícia Federal. Como se não bastasse, ao assumir a vaga de Serraglio, Torquato Jardim criticou o inquérito aberto contra Temer no Supremo Tribunal Federal, falou sobre suposto abuso de autoridade do Procurador-Geral e, de quebra, deixou no ar a ameaça de trocar o comando da Polícia Federal.

Nem um parlamentar de oposição poderia ter traçado um roteiro tão arriscado para o governo. Insatisfeito com o tratamento recebido, Serraglio tomou de volta o cargo de deputado, ocupado até então pelo suplente Rocha Loures. Sem a proteção do mandato, Loures foi preso e agora, mais do que nunca, pode ser chamado de homem-bomba. Qualquer movimento do ex-assessor no sentido de uma delação pode comprometer de vez a permanência de Temer no Palácio do Planalto. Afinal Loures era o homem de extrema confiança escolhido por Temer para tratar de "tudo" com Joesley, poucos dias antes de ser filmado recebendo uma mala de dinheiro da JBS.

A captura do "homem da mala" torna ainda mais volátil o ambiente político, especialmente nesses dias que antecedem o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A detenção de Loures pode não influenciar o voto dos ministros, mas muda a configuração política e aumenta a pressão contra o presidente. Não por acaso, parlamentares da base aliada fugiam de contatos com jornalistas neste sábado. Muitos não querem mais se comprometer com uma defesa pública de Temer. O trem da história está acelerado, com um agravante: sem direção.

— Os fatos estão se sucedendo e ninguém tem controle sobre eles — resume Ricardo Ferraço (ES), vice-líder do PSDB no Senado.

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