RIO - Depois de atingir R$ 3,281, o maior nível desde 1º de abril de 2003 (R$ 3,3130), ainda no início do governo Lula, o dólar comercial fechou em alta de quase 3% nessa sexta-feira. A moeda americana teve alta de 2,81% diante o real, a R$ 3,248 na compra e a R$ 3,250 na venda. Esse é o maior valor de fechamento para a divisa desde os R$ 3,255 de 3 de abril de 2003. Na semana, o avanço foi de 6,31%.
Pesaram para essa forte valorização a expectativa de juros nos Estados Unidos e, principalmente, a incerteza política, agravada com o temor de que as manifestações marcadas para o final de semana possam reduzir ainda mais a popularidade da presidente Dilma Rousseff, dificultando o processo de aprovação das medidas do ajuste fiscal.
Para analistas, o quadro político antes das manifestações previstas para hoje — a favor do governo Dilma — e domingo — contra o governo — pesa sobre o dólar. Além disso, aumenta a percepção de que o governo considera o câmbio flutuante e não deve intervir para alterar a oscilação da moeda americana.
Ao mesmo tempo, o mercado segue o cenário externo, na expectativa da reunião dos conselheiros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) na próxima semana. Mas embora a moeda americana ganhe força no mundo inteiro, há quem admita que o movimento de alta no Brasil reflita as especulações de investidores. O baixo volume de negociações também contribui para oscilações mais significativas.
Nas casas de câmbio, o dólar turismo já é negociado a R$ 3,70 no cartão pré-pago, valor que inclui IOF de 6,38%. No cartão pré-pago, a cotação variava, já com imposto, de R$ 3,55 a R$ 3,70, de acordo com uma pesquisa feita pelo GLOBO em cinco casas de câmbio. Em espécie, a moeda americana variava entre R$ 3,40 e R$ 3,49, também incluindo o IOF de 0,38%.
— Além da influência externa, com valorização em todo o mundo, o dólar é puxado pela instabilidade política. Há expectativa com as manifestações de domingo e seu desdobramento. O mercado está se protegendo, fazendo hedge (operação de proteção da moeda), sejam os investidores ou as empresas — diz o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.
Para o analista da Clear Raphael Figueiredo, a tendência mundial de valorização, o clima político e o risco de recuo da classificação de risco do Brasil são alguns dos fatores que puxam o dólar para cima. Ele admite, no entanto, que pode haver uma certa especulação hoje.
— Os Estados Unidos podem subir os juros antes do previsto e temos um cenário de incerteza no mercado doméstico, com risco de perda de rating e o clima político, com manifestações no fim de semana. O dólar passou de R$ 3,20 e não tem sinal de topo. Mas hoje parece mesmo haver um perfil mais especulativo — afirma Figueiredo.
PREVISÃO DE R$ 3,50 NA PRÓXIMA SEMANA
O gerente da mesa de câmbio da Icap Brasil, Italo Abucater, afirma que é o cenário doméstico que contribui para uma valorização do dólar muito mais intensa aqui no Brasil que em outros mercados. Para ele, a moeda passa de R$ 3,50 na próxima semana:
— Fatalmente o dólar vai a R$ 3,50 na próxima semana e vai continuar testando novos limites. O Banco Central não deve renovar as operações de swap e os gringos também estão vendendo — diz Abucater.
Para além das razões que contribuem para a valorização do dólar, Abucater admite que há uma parte de especulação nesta alta expressiva desta sexta-feira:
— Tem um lado psicológico das sextas-feiras, um dia em que o mercado fica normalmente mais sensível. E ainda temos as manifestações do fim de semana. Existe movimento também de especulador.
BOLSA EM QUEDA
O clima também é de pessimismo na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), embora queda tenha perdido o fôlego. O índice Ibovespa, que reúne as principais ações da Bolsa, fechou em queda de 0,58%, para 48.595 pontos. No acumulado da semana, a queda é de 0,77%.
As ações da Petrobras PN (preferencial, sem direito a voto) perderam 2,35%, a R$ 8,30, enquanto Petrobras ON (ordinária, com voto) teve recuo de 1,57%, a R$ 8,15, por causa das consequências da operação Lava-Jato. As preferenciais do Itaú Unibanco caíram 0,50%, a R$ 33,83, enquanto as do Bradesco recuaram 1,23%, a R$ 33,66. No entanto, no setor, a queda maior ocorreu nos papéis do Banco do Brasil, com desvalorização de 2,42%, a R$ 21,37.

