BRASÍLIA. O doleiro disse em delação premiada que o presidente ficava com um percentual das propinas repassadas ao ex-presidente da Câmara (PMDB-RJ), dinheiro esse "capitaneado em todos esses esquemas que ele (Cunha) tinha", conforme o delator. O detalhamento das afirmações de Funaro a procuradores da Procuradoria Geral da República (PGR) está registrado em vídeos, um procedimento padrão nos acordos de delação assinados com o Ministério Público Federal (MPF). Funaro está preso no Presídio da, em Brasília.
O conteúdo relacionado à segunda denúncia da PGR contra Temer, por organização criminosa e obstrução de justiça, foi compartilhado com a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, que faz a primeira análise sobre o prosseguimento ou não da acusação. Dentro do material estão os vídeos da delação de Funaro, que foi utilizada na denúncia formulada pela PGR e apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF). Cabe agora à Câmara dizer se a acusação prossegue ou não.
– Tenho certeza que parte do dinheiro que era repassado, capitaneado em todos esses esquemas que ele tinha, dava um percentual também para o Michel Temer. Eu nunca cheguei a entregar, mas o Altair deve ter entregado algumas vezes – afirmou o doleiro, que operava esquemas do PMDB da Câmara.
Altair era um dos operadores das propinas, responsável por buscar o dinheiro no escritório de Funaro em São Paulo, segundo o delator. O doleiro afirmou que seu escritório ficava próximo a um escritório comprado por Temer; a um escritório de José Yunes, amigo pessoal do presidente, ex-assessor especial da Presidência e apontado como operador de propina ao amigo; e também a um imóvel adquirido por Cunha para distribuir os recursos a políticos.
– O Altair às vezes comentava que tinha de entregar dinheiro ao Michel. O escritório do Michel é atrás do meu escritório. O lugar onde era localizado meu escritório era um lugar muito bom para o Eduardo. Era próximo ao escritório de José Yunes, que arrecada dinheiro para o Michel Temer.
A proximidade entre os escritórios diminuía os riscos, conforme o delator:
– Sendo próximo, o risco era pequeno. O cara saía andando com a mala e andando meia quadra já estava no escritório dele (Temer), não tinha problema nenhum. Uma questão de 100 metros. O meu prédio ficava no final da quadra. O prédio dele (Temer) era contrário ao meu.
Funaro disse acreditar que a compra do imóvel por Temer, próximo ao seu, foi uma "coincidência", uma "coincidência que se tornou uma vantagem". Os procuradores questionaram o doleiro sobre por que o presidente não buscava propina diretamente em seu escritório.
-- Ele tinha receio de se expor, não sabia onde ia buscar, quem era a pessoa. (...) Eu tinha certeza que Michel Temer sabia que era dinheiro de propina – afirmou o delator.
O operador relatou repasses do empresário Natalino Bertin a campanhas do PMDB, intermediados por Cunha, e afirmou que parte do dinheiro chegou a Temer:
– Você acha que Natalino ia dar dinheiro para Michel Temer porque Michel Temer é bonito?

