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‘Eu ouvi o áudio 'Tem que manter isso aí, viu'', diz Barroso

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BRASÍLIA — A última sessão do ano no Supremo Tribunal Federal (), marcada para discutir recursos de investigados na , foi marcada por um desabafo do ministro com referências às investigações que envolvem o presidente . Ele não citou nomes, mas citou o famoso áudio em que Temer, após ouvir relatos do empresário sobre pagamento de propina e a boa relação que tentava manter com o ex-presidente da Câmara , diz:

— Há diferentes de formas de ver a vida e todas merecem consideração e respeito. Eu gostaria de dizer que eu ouvi o áudio "Tem que manter isso aí, viu". Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, eu vi a corridinha na televisão. Eu li o depoimento de Youssef. Eu li o depoimento de Funaro — afirmou Barroso.

A corridinha que ele menciona é uma referência ao ex-deputado e ex-assessor presidencial Rodrigo Rocha Loures, apontado pelo Ministério Público Federal como intermediária de propina paga pela JBS de Joesley para Temer. Foi Rocha Loures quem pegou uma mala com R$ 500 mil. Há três inquéritos abertos contra Temer com base na delação dos executivos da empresa, mas dois estão parados porque não tiveram aval da Câmara. O terceiro, que ainda está ativo, é relatado por Barroso e diz respeito a possíveis irregularidades no decreto presidencial dos portos.

— Portanto nós vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da corrupção que se espalhou de alto a baixo sem cerimônia. Um país em que o modo de fazer política e negócios funciona assim. O agente político relevante escolhe o diretor da estatal ou ministro com cotas de arrecadação. E o diretor da estatal contrata em licitação fraudada a empresa que vai superfaturar a obra ou o contrato público para depois distribuir dinheiros — acrescentou Barroso.

Segundo ele, não importa o destino do dinheiro desviado.

— Aí não faz diferença se foi para o bolso ou se foi para a campanha, porque o problema não é para onde vai de onde vem. É a cultura de desonestidade que se cria de alto a baixo com maus exemplos em que todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer passar os outros para trás, todo mundo quer conseguir o seu, sem mencionar as propinas para financiamento, tudo documentado.

O desabafo de Barroso ocorreu depois de os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes criticarem investigações mal-feitas. Eles citaram o caso do banqueiro André Esteves, que chegou a ser preso e depois foi solto.

— Decretou sua prisão e teve que voltar atrás. Num caso agora em que o Ministério Público pede sua absolvição — disse Toffoli.

— Criamos um monstro (o Ministério Público). E o pior: investigação mal feita. Juntam áudio e não pede, perícia. Um vexame institucional completo de gente que não sabe investigar e foi investido por nós desse poder. É uma grande bagunça, um grande caos, com corta e cola, contradições apontadas. Isso é vexaminoso para o tribunal e temos obrigação de definir minimamente para que isso não prossiga — reclamou Gilmar, acrescentando: — O populismo judicial é responsável por esse tipo de assanhamento criminal. A história não vai nos poupar. A covardia com que tratamos os temas vai ser cobrada.

Barroso rebateu:

— Eu não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e nós temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar as novas gerações de que vale a pena fazer honesto, sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade. Porque não têm. Tem que tratar o menino pego com 100 gramas de maconha da mesma forma que se trata quem desvia milhões de reais — afirmou.

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