BRASÍLIA - Em depoimento no processo no qual é réu na Justiça Federal por irregularidades na Caixa Econômica Federal (CEF), o delator aproveitou para mirar políticos do PMDB, como o presidente e o ministro , da Secretaria-Geral da Presidência da República. Ele corroborou declarações anteriores de houve repasse do empresário para Temer. Uma dessas ocasiões foi na campanha de 2010. O grupo Bertin foi um dos que conseguiram liberação de crédito na Caixa mediante pagamento de propina.
— Se não me engano Eduardo Cunha ficou com R$ 1 milhão. R$ 2 milhões, R$ 2,5 milhões foram destinados ao presidente Michel Temer, e um valor acho que R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão ao deputado Cândido Vaccarezza — disse Funaro, acrescentando:
— O do Temer acho que foi doação oficial pro PMDB nacional.
Moreira já foi vice-presidente da Caixa e também teria recebido propina. Segundo Funaro, ele participou de uma reunião com o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e representantes do Bertin para viabilizar o empréstimo.
Funaro afirmou também que, quanto teve a informação de que ele poderia fazer delação premiada, Cunha o bloqueou no aplicativo de celular pelo qual se falavam. A partir de então se comunicavam por meio de um advogado.
Funaro ainda deu sua versão sobre relato do ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto. Segundo Cleto, Funaro lhe disse que colocaria fogo em sua casa com seus filhos dentro.
— Realmente sou uma pessoa de pavio curto. Tínhamos o projeto da BR Vias e constantemente, como pode ver nas mensagens, queria que colocasse a par como o processo tava andando. E ele sempre dava informações desconexas - começou a explicar Funaro, fazendo referência a uma das empresas que tentava liberar crédito no Fundo de Investimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FI-FGTS), administrado pela Caixa.
— Ele só tinha um voto em 12 (no conselho do FI-FGTS). Se as informações que passam não se mostram verídicas, e ainda só tem um voto de 12, estava entrando em descredibilidade. Nesse disse acabei estourando. Peguei o telefone. Não disse que ia por fogo na casa dele. Falei que ia pedir para Nenê Constantino por fogo na casa dele com os filhos dele dentro. Não fui eu que falei que ia pôr fogo na casa — concluiu Funaro, citando o empresário da família proprietária da BR Vias.
Funaro contou ainda que, após a desavença com Cleto, Cunha chamou os dois e disse que não queria confusão. O ex-presidente da Câmara assumiu então um débito que Cleto reclamava lhe ser devido por Funaro.
Quando o advogado Délio Lins e Silva, que defende Cunha, apresentou a Funaro uma planilha do empresário Joesley Batista, da JBS, com informações sobre alguns pagamentos, ele disse que vários lançamentos não condizem com a verdade.
— Essa planilha está furada — disse Funaro, acrescentando: — Ele (Joesley) conseguiu fazer meu saldo de credor em devedor. Tenho a receber dele R$ 41 milhões de dinheiro lícito. Se incluir o ilícito, são 120 milhões.
Funaro disse ainda que “o que Joesley fala não se escreve”.
O depoimento foi encerrado pouco antes das 13h. Na segunda-feira Cunha será ouvido. Além de Funaro e Cunha, são réus nesses processo: o ex-ministro e ex-presidente da Câmara Henrique Alves (PMDB-RN), o ex-vice-presidente da Caixa Fábio Cleto e o empresároo Alexandre Margotto. Cleto e Margotto também são delatores.
Desde que a delação de Lúcio Funaro se tornou pública, Temer e Moreira vêm adotando a tática de negar as acusações. Em nota, o grupo Bertin informou: “Embora ainda sem acesso ao conteúdo do depoimento, a empresa mantém-se à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos que eventualmente sejam necessários.”

