BRASÍLIA — “Enquanto houver bambu, vai ter flecha”. A frase de efeito, pronunciada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em 1º de julho, mostrava o que estava por vir. De lá para cá, se passaram 78 dias, os últimos dos quatro anos em que ele permaneceu no cargo. Nesse período, só nos processos da Operação Lava-Jato, Janot apresentou sete denúncias no Supremo Tribunal Federal (STF).
Entre os alvos, muita gente graúda, como o presidente Michel Temer e os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
As flechadas de Janot, porém, começaram bem antes. Em março de 2014, a Lava-Jato começou no Paraná. Inicialmente investigando uma rede de doleiros, a operação cresceu e começou a atingir pessoas com foro privilegiado no STF, como deputados e senadores. Casos assim requerem a atuação do procurador-geral que, em março de 2015, viu os primeiros inquéritos pedidos por ele serem abertos pelo ministro do Supremo Teori Zavascki, que morreu em acidente aéreo em janeiro.
Desde então, entre processos da Lava-Jato e desdobramentos, Janot pediu a abertura de mais de uma centena de inquéritos e apresentou dezenas de denúncias. As ações penais abertas chegam a seis. Os investigados fazem parte de todos os grandes partidos e, frequentemente, integram a cúpula de suas agremiações. Mas nem toda flechada foi certeira. Em 15 inquéritos, Janot foi obrigado a pedir o arquivamento por falta de provas. Desses, 13 já foram arquivados e dois esperam decisão do STF. Outros inquéritos seguem em ritmo lento.
Entre uma flechada e outra, os alvos também contra-atacaram. O presidente Michel Temer solicitou que Janot ficasse impedido de atuar nas investigações que o envolvessem, mas o Supremo negou o pedido. Outros políticos também reagiram. Mesmo quem não era investigado, como o ministro Gilmar Mendes, do STF, pôs em dúvida o trabalho do procurador. Gilmar chegou a chamar Rodrigo Janot, por exemplo, de “delinquente”.

