RIO - Em um país hoje comandado por um vice, Michel , a figura de número dois nas coligações ganha ainda mais proeminência. Embora cautelosos ao falar das funções que desejam desempenhar em caso de vitória, os companheiros de chapa dos candidatos ao governo do rejeitam a posição de vices decorativos — expressão usada por Temer em carta enviada à então presidente Rousseff na qual reclamava do desprestígio que tinha na função.
Ainda que fiquem menos sob os holofotes na campanha, vices frequentemente são alçados a posições de destaque nos anos seguintes. O governador Luiz Fernando Pezão (MDB), por exemplo, assumiu o comando do estado do Rio após renúncia de Sérgio Cabral (MDB) e foi reeleito. Companheiro de chapa de Pezão, Francisco Dornelles comandou o governo durante seis meses e em outras ocasiões em que o titular se afastou para se tratar de um câncer. Atualmente, o estado de São Paulo e a prefeitura da capital paulista são comandados por vices. Fora isso, o Brasil foi gerido por quatro vices num período de 57 anos: João Goulart, José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer.
O vice na chapa de Eduardo Paes (DEM) é o ex-vereador e ex-secretário de Educação de Niterói, Comte Bittencourt (PPS), que está em seu quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Em 2016, ele foi chamado às vésperas das eleições municipais para substituir Axel Grael, que foi declarado inelegível, como vice na chapa de Rodrigo Neves (hoje no PDT), reeleito prefeito de Niterói. No fim, preferiu ficar na Alerj. Nas eleições de 2018, ele planejava tentar a reeleição, quando foi convidado para ser vice de Paes.
Paes e Comte têm estilos diferentes. O ex-prefeito do Rio é conhecido por um temperamento mais forte, enquanto o vice, pelo estilo conciliador. Internamente, entre os aliados, circula a piada que os cabelos brancos de Comte trouxeram “serenidade à chapa”. O candidato a vice disse que não discutiu participação em secretarias. Na prefeitura do Rio, o candidato do DEM deu posições de destaque para seus vices. O primeiro, Carlos Alberto Muniz (MDB), ocupou a secretaria de Meio Ambiente. Na reeleição, o novo vice, Adilson Pires (PT), comandou a secretaria de Desenvolvimento Social durante parte do governo.
— Não discutimos postos. Mas acho que posso contribuir pela experiência que acumulei na prefeitura de Niterói na área de Educação e em outras áreas a que sempre me dediquei como Ciência e Tecnologia — afirmou Comte.
Se a área de atuação de Comte é a Educação, a do vice de Romário (Podemos) é a Segurança Pública. Dentista e ex-PM, Marcelo Delaroli (PR) é deputado federal e de Maricá, município criticado por Paes em uma conversa com o ex-presidente Lula. E, por onde anda, Delaroli relembra os eleitores do episódio. Embora seu partido nacionalmente apoie Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência, e Romário peça formalmente votos para Alvaro Dias (Podemos), o parlamentar faz campanha por Jair Bolsonaro (PSL). Na pré-campanha, foi cogitado como candidato de Bolsonaro ao governo do Rio. Evangélicos, os dois sempre foram próximos na Câmara.
Na campanha, Delaroli e Romário têm dividido funções. O candidato a vice tem rodado mais o interior, faz a articulação com lideranças políticas e se reúne com alguns setores ligados à Segurança, enquanto Romário se dedica às agendas de rua.
— Romário é o técnico e eu sou o auxiliar técnico. Não faço questão de aparecer, sempre fui muito reservado e sou de muito trabalho. Romário quer que eu participe diretamente não só agora, mas do governo — disse o candidato a vice-governador, que não descarta assumir alguma secretaria.
SEGURANÇA
Além de Delaroli, outro vice incorpora o discurso da Segurança, o deputado estadual e ex-delegado Zaqueu Teixeira, companheiro de chapa de Indio da Costa, ambos do PSD. Ex-secretário de Cabral e ex-petista, Zaqueu tem criticado o antigo chefe e, em um debate de vices na semana passada, continuou a estratégia de Indio de colar a imagem de Paes à do ex-governador. Na campanha, o candidato do PSD e o vice se dividem para tentar chegar a mais eleitores.
— Ele está fazendo agenda de rua e política onde ele teve maior votação como deputado, e eu circulo por onde tenho mais votos. Tenho andando muito na Baixada e ele muito na capital, São Gonçalo e Niterói — afirmou Zaqueu, ressaltando que, num eventual governo, não quer assumir secretarias.
— Vou ajudar o governador a tocar o estado. A gente se completa, tenho experiência, conheço bem a Segurança Pública. Não faço o tipo vice decorativo.
A vice de Tarcísio Motta (PSOL) vem de Caxias. Integrante da coordenação-geral do Sindicato dos Professores (Sepe), Ivanete Silva diz que seu papel será muito mais ativo do que qualquer outro vice. A proposta da chapa é uma espécie de gestão compartilhada do estado.
— Teremos um gabinete único. Na prática, seremos dois governadores compartilhando experiência e dialogando. É um conceito de governo popular — disse Ivanete.
A vice de Anthony Garotinho (PRP) — que teve a candidatura impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral na semana passada — é a vereadora por Duque de Caxias Maria Landerleide de Assis Duarte, a Leide (PRB). Caso se confirme a inelegibilidade, a chapa não poderá ser assumida por ela. Maranhense de uma família de nove filhos, ela migrou para o Rio depois que o pai abandonou a mãe.
A ligação de Leide com a Baixada começou na década de 70. Aos 18 anos, ela foi morar em Caxias para participar de um programa da Igreja Universal de reabilitação de dependentes químicos. O vínculo com a igreja permanece até hoje.

