CURITIBA - Uma série de reuniões a portas fechadas — com direito a lavagem de roupa suja e promessas de respeito mútuo — interrompeu, no último mês, a rotina da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) em Curitiba, protagonistas de mais de três anos de Lava-Jato. Em foco, o resgate da boa relação que marcou o sucesso da operação até aqui.
Para azar de alguns e sorte de outros, o distanciamento entre delegados e procuradores ocorreu no momento em que a reação política à ação anticorrupção ficou mais forte. Começou com o afastamento da PF da mesa de negociação de colaborações premiadas, em especial a da Odebrecht, e se agravou com divergências sobre prioridades de investigações e até críticas públicas à política interna de cada órgão.
O acirramento chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que terá de decidir sobre a legitimidade de acordos assinados pela PF, apesar da contrariedade do colegas do Ministério Público. Agora, depois de muita “terapia de casal”, a promessa é de paz.
Um dos “terapeutas”, aliás, mediador em busca da boa convivência entre as partes é o juiz da 13ª Vara Federal em Curitiba, Sérgio Moro, que, nos próximos dias, deverá garantir à PF acesso ao sistema Drousys da Odebrecht, que reúne informações sobre propina paga pela empreiteira a milhares de pessoas em diferentes partes do mundo ao longo dos anos. A falta de confiança na segurança de informações apresentadas pela empresa no ano passado, que atingiam em cheio figuras do mesmo Executivo que comanda a Polícia Federal, levou a PGR a vetar a participação dos delegados nos desdobramentos de investigações envolvendo a empresa.
O pedido de acesso aos dados está na mesa e deverá ajudar a pacificar a relação entre as partes. Outra decisão tomada depois de muita conversa: divergências institucionais deverão ser debatidas nas instâncias devidas, isto é, entre as autoridades máximas dos órgãos — pelo lado da PF, o Ministério da Justiça e a Direção Geral; no Ministério Público, a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Esse cenário diz respeito ao debate sobre legitimidade para delegados fecharem delações e também sobre a estrutura da PF sob nova gestão. Um dos momentos de maior tensão foi quando o procurador do MPF Carlos Fernando dos Santos Lima criticou, no início de julho, durante coletiva no próprio prédio da Superintendência da PF, em Curitiba, a transformação da força-tarefa da PF em um grupo de trabalho com efetivo reduzido. A pressão tinha como endereço o Ministério da Justiça, mas não surtiu o efeito esperado.
— Se houve desgaste em algum momento, a gente tem que sentar e falar. Família é assim mesmo, relações são assim — admite Carlos Fernando, para quem “a relação agora está sendo resgatada”. — Nós acreditamos na equipe deles, e eles também sabem da nossa seriedade — completa o procurador, que, nos últimos dias, tem repetido aos colegas delegados, ao falar dos problemas, que “não é bem assim”.
Do outro lado da mesa, o delegado federal Igor de Paula reconhece que a origem das rusgas são diretrizes de Brasília no lado do MP, e não os colegas de Curitiba. Ele aposta no restabelecimento do casamento com o MPF.
— Sempre trabalhamos juntos. Divergências são normais. Só não podemos deixar isso atrapalhar o trabalho. Acho que todos nós percebemos que as divergências institucionais têm que ser tratadas no momento adequado e não dentro da operação — defende.
No fim de julho passado, logo depois do estouro da investigação sobre Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, o delegado Felipe Pace enviou ofício a Moro reclamando da conduta dos procuradores do caso, que praticamente teriam excluído a PF das apurações. No ofício, pediu que os colegas do Ministério Público fossem intimados a se manifestar sobre a real necessidade de instauração de inquérito policial.
— Às vezes, é um desabafo. Essas questões não são jurídicas — minimiza Carlos Fernando.
A promessa de novos tempos é de ninguém se intrometer no dia a dia do outro em busca de objetivo comum, com alvos claros.
— Você tem que fazer do limão uma limonada, não adianta ficar chorando porque você só tem o limão — resume o procurador.
Um dos delegados em Curitiba acredita que a relação se restabelece “dando tempo ao tempo”, mas ressalta que há limites para esse novo tempo da relação na Lava-Jato.
— Brigas ocorrem em qualquer casamento, mas sempre é possível retomar desde que não haja traição — resume o policial federal.

