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Símbolo da internação involuntária em SP, usuário de crack desabafa: ‘Estou sem controle’

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SÃO PAULO - Quatro anos após inaugurar o , um dos primeiros pacientes levados a uma clínica de forma involuntária na capital paulista, em 2013, desabafa: “Estou sem controle”. O vendedor Reinaldo Rocha Mira, de 68 anos, voltou ao vício três meses depois de deixar o tratamento e, até hoje, diz que não consegue se livrar da droga.

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— Antes eu achava que tinha controle, que não era compulsivo. Hoje não consigo mais parar – admite.

Viciado na droga há 30 anos, Mira foi viver pelas ruas em 2010, e chegou a morar por um período na Cracolândia, no Centro, onde .

Para retirar os usuários das ruas, — ou seja, à força — das pessoas que ali viviam. O vendedor concorda com a medida, em casos extremos, mas critica toda forma de violência.

— Se você for hoje em qualquer cracolândia, verá que a maioria quer sair dessa, sim. Nem precisa ser de forma compulsória. O problema é a forma como tratam a gente! Não é na violência que vão conseguir, nem colocando num lugar qualquer. São poucos os profissionais qualificados para atender a gente – observa ele.

Em janeiro de 2013 o governo de São Paulo lançou programa para acelerar as internações compulsórias e involuntárias de usuários de droga, após avaliação clínica e jurídica no Centro de Referência em Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod). O primeiro dos dez leitos temporários disponíveis naquele centro foi preenchido pelo vendedor. Ele foi para o local após a filha, Ana Paula Mira, de 38 anos, colocar calmante em um suco. Mira passou por avaliações preliminares e levado em seguida para o Hospital Psiquiátrico Lacan, em São Bernardo do Campo (SP).

Ela também apoia a internação compulsória ou involuntária:

— Mas não é pegar e jogar em qualquer lugar. Nós, familiares, fazemos isso porque não aguentamos. Já chorei muito por saber que ele está morrendo.

Pai de quatro filhos, o vendedor ficou naquela clínica por 45 dias e depois transferido para outra, com ajuda de amigos, completando nove meses de internação. Ele saiu do hospital em setembro de 2013. Dias após sua alta, seu filho caçula, de 28 anos, foi morto após envolvimento com o tráfico. Em três meses Mira estava de volta ao vício.

— Executaram um filho meu de 28 anos, meu companheiro. Aí voltei a andar com umas pessoas e acabei nessa vida de novo. Já fui ao Cratod pedir ajuda e só o que fazem é me dar remédio para cortar minha vontade de fumar. As pessoas têm que entender que viciado precisa ser internado. Remédio comigo não adianta — admite.

A secretaria estadual de Saúde disse que a internação de dependentes químicos só é indicada para casos mais graves. Os demais, afirma a pasta em nota, devem ser acompanhados num Centro de Atenção Psicossocial (Caps), seguindo diretrizes do Ministério da Saúde. Ainda de acordo com o órgão, após avaliação médica, em março, no Cratod, foi constatado que não havia necessidade de internação para Mira.

Apesar de ter medo de tomar remédio “para não ficar hipocondríaco”, o vendedor fala que hoje não consegue parar de consumir duas pedras de crack antes de dormir. Ele gasta cerca de R$ 500 por mês com a droga. Explica que se sente bem. Parecendo ter boa memória — ele lembra com detalhes do trabalho de engraxate aos seis anos de idade e de ter parado de estudar no primário — se recorda de como foi parar nas ruas:

— Tive conflitos com minha família e achei que ali estava na hora de partir. Abandonei tudo e passei a viver como catador. Também ganhava coisas na rua e pratiquei assaltos.

Entre 2013 e 2016 houve, no Estado de São Paulo, 11.507 internações para desintoxicação, sendo 8.904 voluntárias, 2.580 involuntárias e 23 compulsórias.

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