RIO - Os tempos de euforia a bordo do jatinho do doleiro Alberto Youssef e a ostentação ao exibir joias de rubi deram lugar a um mergulho numa depressão aguda. A alegação de que padece da doença motivou um pedido dos advogados da doleira Nelma Kodama, que querem revisar o acordo de colaboração premiada junto ao Ministério Público Federal (MPF), em 2016. A doleira quer ficar livre da tornozeleira eletrônica e reaver parte dos bens que perdeu para a Justiça após a delação.
E não é só. Nelma, condenada a 15 anos de prisão por lavagem de dinheiro, organização criminosa, evasão de divisas e corrupção ativa, também pede o cancelamento de uma multa de cerca de R$ 100 milhões com a Lava-Jato, além de tentar evitar o leilão da cobertura onde mora, na Zona Sul da capital paulista, e recuperar parte dos R$ 4 milhões congelados em suas contas para montar um consultório e trabalhar como dentista.
Os advogados apresentaram um diploma de graduação dela de 1992, quando, segundo diz o documento, se formou na Faculdade de Odontologia de Lins, a 430 quilômetros de São Paulo.
Argumentam que a doleira passa por dificuldades financeiras, e que a restrição de horários imposta pela Justiça por meio de monitoramento eletrônico a impede de trabalhar e atrapalha até para frequentar uma igreja evangélica, onde busca forças.
Juntaram no processo ainda um laudo psicológico e outro psiquiátrico que confirmam que Nelma toma remédios controlados. Por fim, pediram o desbloqueio dos bens de familiares da doleira, que são alvo de ação fiscal da Receita Federal.
Presa na Operação Lava-Jato com 200 mil euros na calcinha em 2014, Nelma foi solta em 2016 após fazer delação e ficar 2 anos, 3 meses e 5 dias na prisão. Com o acordo, teve confiscados também pelo menos 40 unidades que tinha no Hospital Villa-Lobos e um Porsche Macan.
Ela atuava em parceria com Alberto Youssef, com quem teve um relacionamento amoroso. Ao explicar a relação, Nelma cantou a canção "Amada Amante" na CPI da Petrobras, em 2015, quando se tornou conhecida.
Ela e Youssef chegaram a ficar presos na carceragem da Polícia Federal de Curitiba, mas em celas separadas. Na época, despertava ciúmes em Youssef, já que na mesma cadeia estava um empresário, com quem tivera um caso após uma briga com o doleiro.
De tão notório no noticiário, o caso de Nelma e Youssef foi retratado, mas com nomes fictícios, num episódio da série "O mecanismo", do Netflix, inclusive com cenas quentes em que os personagens faziam sexo na prisão, o que nunca se provou verdade fora das telas.
Na vida real, aliás, Nelma foi acusada de enviar para o exterior US$ 5,2 milhões em 2013 por meio de 91 importações fictícias, usando uma de suas várias empresas de fachada. Irreverente, usava codinomes de atrizes famosas como Angelina Jolie para falar com outros doleiros.
Em Curitiba, a avaliação é de que é difícil que o pedido da doleira prospere. Embora ainda não tenham se manifestado no processo, integrantes da Força-Tarefa da Lava-Jato não parecem ter se sensibilizado:
- Para casos mais graves de depressão existem hospitais e psiquiatras. Para quem cometeu crime e celebrou acordo tem duas opções: ou cumpre o acordo, ou volta para cadeia. Não há terceira via - diz um membro da Força-Tarefa da Lava-Jato.
A tornozeleira de que hoje a doleira quer se ver livre já motivou um ensaio sensual dela em outubro do ano passado, quando publicou fotos usando joias numa rede social. O deboche na internet rendeu novos problemas com a polícia e acabou sendo investigada por receptação.
As joias foram reconhecidas por uma moradora que teve a mansão assaltada no Morumbi, bairro nobre. A defesa de Nelma nega as acusações.

