Início Economia Alvo da Lava Jato, CCR ressarciu cofres públicos para disputar concessões no país
Economia

Alvo da Lava Jato, CCR ressarciu cofres públicos para disputar concessões no país

BRASÍLIA, DF, RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Investigada na Operação Lava Jato, a CCR foi uma das poucas empresas a virar a página. Depois de firmar dois acordos de leniência e pagar quase R$ 800 milhões em indenizações ao poder público, a empresa decidiu turbinar sua carteira de concessões e pretende bater o martelo nos leilões de infraestrutura previstos para este ano e que devem render R$ 84 bilhões em investimentos ao governo. Essa estratégia é o que explica o apetite da Companhia de Participações em Concessões do grupo CCR que arrematou, nesta terça-feira (7), dois dos três lotes de aeroportos concedidos pelo governo —os das regiões Sul e Central— com ofertas agressivas. Ofereceu ágios de 1.534,36% e 9.156%, respectivamente. A francesa Vinci ficou com aeroportos da região Norte. Em média, o leilão teve ágio de 3.822,61% em relação ao valor mínimo das áreas em disputa. O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes, disse que o resultado positivo, principalmente em meio à pandemia, é uma vitória do presidente Jair Bolsonaro e reforça a agenda liberal do governo. A CCR foi responsável pelo maior lance, de R$ 2,1 bilhões, pelo bloco Sul, composto por nove aeroportos, incluindo os de Curitiba (que na verdade fica em São José dos Pinhais) e Foz do Iguaçu, no Paraná. A oferta equivale ao dobro da segunda proposta, feita pela espanhola Aena. A concessão inclui também os aeroportos paranaenses de Londrina e do Bacacheri (em Curitiba, atende aviação executiva), dois em Santa Catarina (Navegantes e Joinville), e os de Pelotas, Uruguaiana e Bagé, no Rio Grande do Sul. Juntos, todos os nove movimentaram 12,4 milhões de passageiros em 2019. O contrato prevê investimentos de R$ 2,85 bilhões. A CCR levou também o bloco Central —aeroportos de Goiânia (GO), São Luís e Imperatriz (MA), Teresina (PI), Palmas (TO) e Petrolina (PE), que movimentaram 7,3 milhões de passageiros em 2019—, com proposta de R$ 754 milhões. Ambos os lances foram muito superiores aos das segundas colocadas, forma de evitar competição no chamado viva-voz, em que as empresas aumentam suas ofertas até baterem o martelo. A CCR queria garantir os aeroportos na sua carteira para consolidar sua presença no cenário futuro da aviação nacional. Hoje, a CCR só administra o aeroporto de Confins (MG) e outros três aeroportos no exterior (Equador, Curaçao e Costa Rica). Em entrevista após o leilão, o diretor-presidente da CCR, Marco Cauduro, afirmou que os elevados ágios refletem a avaliação da empresa sobre o potencial de crescimento do tráfego nos aeroportos, que considerou também a possibilidade de sinergia na movimentação de cargas com outras concessões de infraestrutura da empresa. Ele disse que a situação financeira da companhia lhe permite arcar com os elevados desembolsos. "A CCR é empresa consolidada, com balanço robusto, mais de R$ 5 bilhões em caixa e capacidade de contratar empréstimos e financiamentos adicionais." A ideia é diversificar ainda mais a carteira de projetos e consolidar a empresa no ramo da mobilidade, com integração entre os diversos modais —dentro e fora das cidades. Segundo interlocutores do governo, a companhia estuda fazer ofertas pela NovaDutra, rodovia entre Rio de Janeiro e São Paulo que a própria CCR administra atualmente e será licitada neste ano devido ao vencimento do contrato. Também avalia a BR-153 e o pacote de rodovias do Paraná que o Ministério da Infraestrutura deverá conceder neste ano. No estado, já administra rodovias que ligam o norte e o nordeste do Paraná a Curitiba, que serão relicitadas. Deverá fazer lances para as Linhas 8 e 9 da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) com leilão previsto para o final deste mês e estimativa de contratos da ordem de R$ 3,2 bilhões por 30 anos de concessão com o governo de São Paulo. O bom desempenho nas concessões só ocorreu devido à iniciativa de um de seus sócios, a empreiteira Camargo Correa, que, no passado, contrariou a resistência de suas concorrentes pegas pela Polícia Federal em esquema de corrupção com o poder público em troca de contratos e decidiu firmar acordos de leniência. Por esses acordos, a empresa acerta o valor de indenização por danos causados ao erário e, em troca, continua habilitada a fechar contratos públicos. A CCR seguiu o mesmo caminho e fechou dois acordos dessa natureza. O primeiro deles, conhecido como Termo de Autocomposição, foi assinado com o Ministério Público de São Paulo em novembro de 2018. Por ele, a empresa se comprometeu a pagar R$ 81,5 milhões como forma de reparar os cofres públicos por doações irregulares nas campanhas políticas de diversos partidos políticos entre 2009 e 2013. Em março de 2019, o grupo fechou acordo com o Ministério Público do Paraná e concluiu o pagamento de R$ 750 milhões neste ano por pagamento de propina a ex-integrantes do governo paranaense, além de se comprometer a reduzir o valor das tarifas em 30% nas praças que mantém no estado. Os casos foram revelados às autoridades pelo lobista Adir Assad em delação premiada. À época, os advogados da empresa diziam que a decisão de firmar os acordos de reparação não era somente jurídica, mas estratégica. Empreiteiras de outros grupos investigadas pela Lava Jato, como Odebrecht e Andrade Gutierrez, resistiram a essa saída e levaram muito mais tempo para seguir esse mesmo caminho. Como resultado, sofreram danos maiores —de imagem e financeiros. A Odebrecht, por exemplo, precisou trocar de nome e hoje se chama Novonor. Desde que virou essa página, a CCR fechou diversos contratos de concessão. Somente na Rodovia de Integração Sul, injetou R$ 1,3 bilhão para a criação da ViaSul, concessionária dessas rodovias, e se comprometeu a investir R$ 7,8 bilhões ao longo de 30 anos de contrato.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?