SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Bolsa de Valores brasileira cedeu ao pessimismo global nesta sexta-feira (18), fechando o dia em queda de 0,57%, a 112.879 pontos. Após duas sessões em baixa, o Ibovespa terminou a semana com perdas de 0,61%. Isso encerrou um ciclo de cinco altas semanais consecutivas.
Desde dezembro de 2020 o índice não tinha um ciclo tão longo de altas. Na ocasião, foram sete semanas no azul. Em 2022, o indicador de referência da Bolsa ainda acumula ganhos de 7,69%.
Apesar o recuo do mercado de ações neste pregão, o dólar comercial caiu 0,50%, a R$ 5,1410. No acumulado da semana, a divisa americana perdeu 1,49% do seu valor frente ao real.
Pressões da China, que investiga supostas irregularidades nos preços do minério de ferro, prejudicaram o desempenho das ações dos setores de mineração e metalurgia, um dos mais importantes da Bolsa brasileira.
Como pano de fundo, o agravamento das tensões envolvendo Rússia e Ucrânia criou um cenário desfavorável para os mercados de ações em todo o mundo. Investidores estão avessos a aplicações em bolsas porque temem o impacto do conflito sobre as empresas.
O mercado de ações brasileiro chegou a passar parte da manhã desta sexta no azul, mas perdeu força após a abertura das bolsas em Nova York. O mercado americano assumiu um viés negativo ainda na primeira hora de negociações. Os índices Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq fecharam em queda de 0,68%, 0,72% e 1,23%, respectivamente. Também caíram as principais bolsas da Europa, Ásia e Américas.
Uma guerra na Europa poderia prolongar e ampliar a já elevada inflação nas economias desenvolvidas, disse disse Hani Redha, gerente de portfólio da PineBridge Investments, ao The Wall Street Journal.
Esse risco existe porque um conflito na região interromperia o fornecimento de commodities importantes. A Rússia está entre os maiores fornecedores mundiais de petróleo e gás natural. Mas não é só isso. O país é um dos principais exportadores de trigo e um grande produtor de metais como paládio, alumínio e níquel.
"A inflação é realmente a grande questão que determinará como os mercados se comportam e isso só aumenta o atraso na resolução da situação da inflação", comentou Redha.
Interrupções no fornecimento de insumos para as mais variadas atividades industriais durante a pandemia estão entre as principais causas da atual inflação global, obrigando os principais bancos centrais a discutir cortes em estímulos financeiros e elevações de juros.
É essa discussão sobre política monetária que está direcionando o mercado financeiro mundial e, de certa forma, beneficiando temporariamente o Brasil.
À espera do início efetivo do aperto monetário, sobretudo nos Estados Unidos, grandes investidores vendem ações que acumularam ganhos nos últimos anos. Parte desse capital está sendo direcionado para mercados que estavam baratos, como é o caso do brasileiro.
Diante da iminência de um conflito armado envolvendo uma das maiores potências militares, porém, a incerteza pode prejudicar esse movimento, até então favorável ao Brasil.
No mercado de petróleo, o barril do Brent subia 0,87%, a US$ 93,78 (R$ 481,40), no final da tarde. A alta só não é maior porque avanços em um acordo sobre o programa nuclear do Irã estão motivando especulações sobre a retirada de restrições à oferta de petróleo do país.
DÓLAR APROFUNDA QUEDA EM 2022
Diante das preocupações com a possibilidade de guerra na Europa, o real mostrou resistência em relação ao dólar, que fechou a semana em queda de 1,49%. No ano, o recuo chegou a 7,80%.
Considerando que a aversão ao risco prejudicou o desempenho da Bolsa nesta semana, pode parecer incoerente que o dólar tenha permanecido em queda, uma vez que é na divisa americana que participantes do mercado buscam proteção em momentos de volatilidade.
A explicação para essa contradição também está no atual hiato entre a expectativa de elevação dos juros nos Estados Unidos e a efetivação dessa medida, que de acordo com as pistas dadas pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano) ocorrerá a partir de março.
Com os juros americanos zerados desde o início da pandemia, os títulos do governo dos Estados Unidos aplicações seguras para onde o capital internacional foge em momentos de tensão entregam rentabilidade negativa devido à inflação anual que passa de 7% no país.
Além disso, não há certeza entre analistas se os juros americanos serão elevados quatro, cinco ou mais vezes até o final deste ano. Também não está claro se o próximo ajuste será de 0,25 ou de 0,5 ponto percentual.
É uma situação oposta à do Brasil, onde os juros já estão altos a taxa Selic é de 10,75% ao ano, com perspectiva de chegar a mais de 12%, enquanto a inflação esperada para 2022 está na casa dos 5,4%.
Além disso, o real ainda permanece desvalorizado em relação ao dólar. O mesmo ocorre com as ações de empresas importantes da Bolsa brasileira, após uma desvalorização de quase 12% em 2021.
A combinação de Bolsa e real desvalorizados, juros altos e esperança de controle da inflação deixa o Brasil barato aos olhos de investidores internacionais, segundo Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest.
"Apesar da grande volatilidade, há um fluxo de investidores estrangeiros vindo para Brasil, para renda fixa e Bolsa", comenta Quartaroli.
No caso das aplicações no mercado de ações, o capital estrangeiro investido neste ano já alcançou R$ 52,3 bilhões. Isso significa 94% a mais do que o total de R$ 27,2 bilhões aplicados nos meses de janeiro e fevereiro de 2021, segundo dados da B3, a Bolsa de Valores do Brasil.
Esse grupo de investidores é responsável por 52,8% do volume negociado na Bolsa.
Jennie Li, estrategista de ações da XP, explica que a categoria classificada pela B3 como "investidores estrangeiros" é basicamente composta por instituições, ou seja, gestoras com sede no exterior.
Quartaroli alerta, porém, que há diversos fatores que podem colocar a atratividade do Brasil em xeque, como uma elevação acelerada dos juros nos Estados Unidos e sinais de que o governo brasileiro elevará gastos para melhorar seu desempenho nas eleições de outubro, quando o presidente Jair Bolsonaro (PL) tentará a reeleição.

