Início Economia ANÁLISE: Vitória obscurecida na aprovação da nova lei americana
Economia

ANÁLISE: Vitória obscurecida na aprovação da nova lei americana

WASHINGTON - A aprovação da reforma tributária no Senado na madrugada deste sábado, com negociações de última hora, mudanças anotadas à caneta no calhamaço de 500 páginas e vitória pela margem mínima, incluindo a traição de um republicano, é a maior conquista do ano do presidente Donald Trump e com o “estilo caótico” que marcou seus primeiros dez meses na Casa Branca. Mas, se na política o resultado foi ofuscado pelas investigações da trama russa, na parte econômica ainda tem muitas perguntas em aberto.

A primeira delas é ainda saber qual será a reforma que vai valer. O projeto do Senado tem as linhas gerais da proposta aprovada na Câmara dos Representantes mas, em temas tributários, o diabo mora nos detalhes. A comissão que tentará equalizar os dois textos terá muito trabalho e a pressão de Trump, que quer promulgar a reforma como “presente de Natal” para os americanos. O presidente da Câmara, Paul Ryan, já disse que não aceita votar o texto do Senado entre os deputados, mas essa fórmula, mais rara, não está descartada para agradar a Casa Branca.

Resolvida esta etapa, a reforma entrará em vigor com dois objetivos audaciosos e uma fonte de tensão. A primeira é gerar uma aceleração de crescimento tão grande que compense o corte de US$ 1,5 trilhão estimado nas receitas nos próximos dez anos. Economistas de renome das maiores universidades americanas dizem que isso não funcionará. O segundo é fazer com que os benefícios cheguem à classe média, embora todas as simulações indiquem que os maiores beneficiados serão o andar de cima da sociedade americana, justo em um dos momentos de recorde de desigualdade no país desde a Segunda Guerra Mundial. O ponto de tensão será o fim da obrigatoriedade de contratação de planos de saúde pelos americanos, pilar fundamental do Obamacare, que pode fazer com que a classe trabalhadora mais pobre — grande base de suporte de Trump — comece a se sentir traída com aumentos de seus gastos com saúde.

O mercado financeiro gostou da aprovação e, no curto prazo, pode enfrentar uma euforia com as novas normas e impostos mais baixos para empresas e corporações, acabando o atrativo de transferir atividades para outros países e paraísos fiscais. No longo prazo, pode aumentar o endividamento, ampliando a pressão sobre o dólar e as taxas de juros nos EUA. Um risco e tanto para um país que no passado era conhecido pelos “falcões do déficit” nos debates orçamentários, mas que agora se silenciaram e nem tentaram alçar voos. Resta saber se a heterodoxia fiscal vai servir de exemplo para outros países do mundo.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?